Artigos e Opinião

Cenas

Leia artigo de Sylvia Cesco: 'A música que vem do céu'

Professora, escritora e poeta. Diretora Cultural da UBE/MS

Redação

21/12/2017 - 19h38

Moro numa casa simples, em bairro central da cidade. Meu jardim se restringe a duas floridas primaveras cor de maravilha e a um pé de tuia-holandesa, espécie de pinheiro comprado anos atrás para encher de bolas coloridas e luzes para fazer a alegria dos netos, hoje já tão crescidos que nem reparam mais no pobre pinheiro que pisca, solitário, durante todo o mês de dezembro. 

Mas sou uma romântica incurável e, nas festas natalinas, finjo que não vejo essa gélida indiferença, tão própria da juventude, com meu pinheiro se exibindo provocativamente luminoso, faça chuva ou faça sol.

Além deste jardim, por força das circunstâncias, tenho também em minha casa duas gatas que chegaram há cerca de um ano, pelas mãos da minha filha mais velha, defensora anônima de bichos abandonados e que acaba me envolvendo nesses cuidados. Sempre gostei de cachorros. Muito mesmo. 

Por aqui, já passaram Maradona, Uka, Pretão, Pretinho, Princesa, Domênica, Kálica, Mel, Lilika Repilika... Ao contrário, os gatos não tinham muito meu apreço, talvez pela sua autossuficiência, suas demonstrações de não precisarem do meu colo e meu carinho...  

Mas fazer o quê? Não seria eu a deixar Pedrita e Sininho, ainda pequenas e sem nome na ocasião em que aqui chegaram, comendo o peixe que o diabo pescou, vadiando pelas ruas desta Morena. Além do mais, meus cachorros foram partindo um a um, numa dolorosa procissão de perdas caninas ao longo dos anos, deixando mi hogar vazio feito um banco de praça em manhãs chuvosas. 

De uns tempos para cá, os finais de tarde nessa casa simples onde moro passaram a ser especiais, desta vez não por causa da possível e inesperada chegada de um cãozinho qualquer, mas de uma bela e firme voz masculina, interpretando tangos, boleros, guarânias e que tais, acompanhada de um back vocal de qualidade. Esses acordes são como divinas ofertas ao cair da tarde, depois de um dia atarefado. 

Acostumei-me a me sentar sob uma das primaveras cor de maravilha e a fechar meus olhos em acolhimento dessas dádivas que me são trazidas pelo vento e que parecem chegar, enigmaticamente, ora de um lado, ora de outro. 

Minha casa está entre um terreno baldio e um grande salão de beleza, de onde, por certo, não deve vir a música que escuto. Nem tampouco do consultório dentário em frente. Mas também não me passa pela cabeça acreditar que os maviosos dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dós possam sair de um prédio de 17 andares, bem próximo da minha casa. 

Decidi, então, numa dessas tardes, acabar com tal mistério. Mal a voz começou seus encantamentos sonoros, levantei-me da indolente cadeira, abri o portão, andei pra lá e pra cá, atravessei e desatravessei a rua, tal como uma das lendárias 130 crianças tentando acompanhar o Flautista de Hamelin. 

Quando em vez, parava intrigada com aquele som que ia e vinha, “como uma onda no mar”. Sem conseguir descobrir o mistério – posto que nunca tive tendência sherlockiana –, só me restou continuar fechando os olhos para sentir a música que vinha do céu todas as tardes. 

Ontem, finalmente, descobri que ela vem, sim, do último andar do referido prédio, ofertada a todos pela voz melodiosa do Dr. Silvio Lobo, um dos grandes incentivadores das serestas de nossa Morena. Desfeito o mistério, só posso desejar – sou até capaz de comer três grãos de romã e dar três pulinhos – que 2018 tenha mais música no ar desta Morena.

 

Artigo

As 600 oliveiras de Nabatiyé e as eleições brasileiras

Segundo o proprietário, algumas tinham aproximadamente 500 anos, acompanhando gerações, mudanças de governo e sucessivas estações

03/11/2026 07h35

As 600 oliveiras de Nabatiyé e as eleições brasileiras

As 600 oliveiras de Nabatiyé e as eleições brasileiras

Continue Lendo...

Editorial

Segurança pública exige inteligência

O crime organizado não respeita limites estaduais, calendários eleitorais ou diferenças partidárias, por isso, seu enfrentamento não pode ficar limitado a iniciativas isoladas

03/11/2026 07h25

Segurança pública exige inteligência

Segurança pública exige inteligência

Continue Lendo...

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).