Caipira era pessoa muito ingênua, que vivia no sertão desses brasis bravios. Viajar de trem ou de jardineira pelo interior paulista e sul-mineiro, como muitas vezes fiz nos dias da mocidade, era manter contato direto com típicos caipiras.
Apesar de tímidos, eles tinham seus costumes atávicos e regiam suas vidas dentro da simplicidade, mesmo se dispusessem de patrimônio econômico suficiente para garantir-lhes uma vida de luxo, mas jamais abandonavam o torrão natal para viver em lugares sofisticados.
Hoje em dia, com o grande avanço da televisão pelo Brasil afora, a figura pitoresca do caipira desapareceu do cenário urbano e rural. Surgiu um outro tipo humano, que se mesclou com as “gentes da cidade”, a tal ponto de já não ser mais reconhecido no meio da massa popular como aquele capiau folclórico.
O progresso das rodovias pavimentadas e o surgimento do ônibus interurbano – que substituiu o trem e a jardineira – contribuíram eficazmente para o sumiço do jeca.
A moda de viola é a ópera caipira, que nos leva a um passado que desapareceu sem deixar marcas. É um poema rústico, que enleva a alma cabocla ao cantar tragédias passionais, como a história cruel da cabocla Tereza.
Também, o heroísmo de caipiras valentes em disputas sanguinolentas com seus desafetos, ou então o arrojo de caipiras destemidos na faina do cotidiano, como aquela moda de viola ao retratar a malvadeza do boiadeiro ao jogar o boi velho às piranhas, enquanto os bois novos atravessam o rio a salvo da voracidade.
O caipira era um povo singular e forte. Seu linguajar típico nos leva a imaginar que o dialeto caipira foi, realmente, a língua nativa brasileira, eis que originário da transposição do guarani para a língua falada pelos donos da colônia brasileira.
O maior de todos os indícios dessa verdade primordial foi a epopeia dos bandeirantes, que falavam a língua dos índios – o guarani –, em suas viagens à procura de ouro e pedras preciosas.
Os bandeirantes, para facilitar o intercâmbio com os índios, falavam o guarani por todas partes por onde passavam e assim, paulatinamente, foram-se aglutinando as deformações da língua portuguesa falada nos sertões bravios, mesclando-se espontaneamente muitos fonemas de uma língua a outra, surgindo dessa forma o dialeto caipira, dominante nas regiões banhadas por rios paulistas e mineiros, onde a economia progredia rapidamente, graças à intensa movimentação de aventureiros nessas regiões.
Por força desses fenômenos sociais, ocorridos nos primórdios da colonização brasileira, o linguajar caipira foi um forte elo entre as línguas do branco e do índio.
Outro fator preponderante ao surgimento do dialeto caipira foi a catequese realizada pelos padres jesuítas no interior da colônia, especificamente nas missões das províncias de São Paulo e do Rio Grande do Sul.
A coroa portuguesa, enciumada pelo vertiginoso engrandecimento do guarani no seio da população brasileira, expulsou os padres jesuítas a mando do Marquês do Pombal, simplesmente porque eles difundiam largamente o guarani, mormente nos sermões das igrejas, o que representava uma real ameaça à extinção da língua portuguesa no Brasil.
Não poderia encerrar esta crônica sem me reportar à pureza da alma caipira, por exemplo, quando o trem morosamente descia a serra, apitando languidamente até parar na estação.
Nesses momentos, caipiras, com aquele linguajar pitoresco, agitavam-se na plataforma, despedindo-se efusivamente dos que partiam, acenando sorridentes até o trem desaparecer de vista.
O cheiro da laranja e da farofa de frango corria dentro dos vagões de passageiros, enquanto, além das janelas, a paisagem maviosa do sertão encantava a vista. À noite, a lua cheia radiante prateava a amplidão sob a quietude fria do luar. Um violeiro caipira, espremido na segunda classe, cantava baixinho a célebre modinha de Catulo: “Num há ó gente luá cume esse du sertão”.