Viu-se, de repente, diante daquele espelho grudado na parede feito uma lagartixa. E foi então que se deu conta de quem havia se tornado: um homem triste e vazio, mesmo após ter devorado, ao longo da sua vida de professor, os livros que costumava ganhar, comprar ou tomar emprestado. Romances, contos, poesias, crônicas, não importava. Todos faziam-lhe as vezes de alimentos, ora doces, ora amargos, ora insossos.
Amores não lhe satisfaziam. Era um ser absorto. Sem vícios, sem encantos. Vez ou outra bebericava uns golitos de uísque e nem reparava na marca. Algo, no entanto, chamava-lhe a atenção: perfumes e odores. Chegava quase a ser um fetiche.
Saiu da frente do espelho e jogou-se, cachorro sem dono, no sofá puído da sala. Fechou os olhos e já seu conhecido cheiro de mato do cerrado entrou-lhe pelas narinas. Novamente aquela lembrança oprimiu-lhe o peito. Dançara com ela, ensinando-lhe que “eram dois pra lá, dois pra cá”. Com suas curvas deliciosamente femininas, sentiu-a tremer em seu braços.
Lembrou-se da música: “Eu Sei que Vou te Amar”, do Poetinha. Reencontrou-a outras vezes. Breves diálogos. Brilho nos olhos. De ambos. Mãos suando frio. De ambos. Coração descompassado. Pelo menos o dele. A última vez que viu a moça de nome antigo foi quando ela subia um catamarã saindo de Niterói. Estava com o corpo mais cheinho, em meio a tantos outros corpos.
Ficou lá, estatelado, no meio do tempo perdido, no meio do nadica de nada, olhando a barca sumir no mar encharcado de sol. Passou a sentir seu cheiro nas salas de aula, a pressentir seu olhar cor de avelã, enquanto os alunos abaixavam os seus, resolvendo, silenciosos, os exercícios de Biologia.
Tinha sido sempre um homem decidido. Suas mãos nem sequer tremeram quando segurou o giz pela primeira vez para desenhar, na lousa, o quadrado de Punnet, explicando a lei de segregação dos fatores proposta por Mendel.
Carismático, moçoilas disputavam sua atenção. Com algumas delas trocou juras de amor eterno enquanto durasse. Mas a eternidade de seus sentimentos era deveras efêmera. Por demais fugaz: Thaisa, Caroline, Cristina, Isabela, Ana Paula, Emannuele... Nunca, porém, uma com o nome daquela que passou a reinar absoluta nos sonhos do seu desejo de macho.
Obcecou-se, adoecido, chegando a pensar mesmo que ela nunca existira, que fora apenas uma raiz, caule, flor e fruto da sua imaginação. Mas seu perfume delicioso, de verde clorofila, denunciava a sua existência.
Adormeceu no sofá mesmo, com sua fome nunca saciada, um lavramor descuidado, tentando arar, adubar e colher os abraços e os beijos daquela moça. Levantou-se na manhã seguinte, revigorado. Arrumou-se, pegou pastas e livros, e marchou firme até a faculdade. Deu um bom-dia apressado aos colegas, entrou de supetão na sala de aula, apagou a lousa ainda escrita e, caprichando na letra, desenhou, extasiada e lentamente: Eu sei que vou te amar. Parou por eternos segundos, respiração suspensa, que se juntou à dos alunos estupefatos, e completou com o sagrado nome: Maria Elvira!
*Professora, escritora
e poeta. Diretora Cultural
da UBE