Parte do custo da ouvidoria municipal, órgão comprovadamente ineficiente, seria muito bem-vinda nas ruas esburacadas e nas vias públicas que, à noite, ficam na escuridão.
Basta circular por Campo Grande para perceber que a administração municipal tem muitos problemas a resolver. Eles são os mais variados: excesso de buracos nas vias, postes repletos de lâmpadas queimadas e um sistema viário com quase nenhuma sinalização e sem algum meio eletrônico para controle de velocidade.
Essas são algumas das deficiências visíveis. Há, ainda, aqueles transtornos muito específicos, como, por exemplo, a necessidade de algum medicamento determinado ou alguma demanda relativa a vagas em uma escola municipal ou um Centro de Educação Infantil (Ceinf).
Nenhuma administração pública, por melhor que seja, é perfeita. Fato praticamente incontestável. Como em qualquer ambiente em que a perfeição não reina absoluta, existem as reclamações e as sugestões. Essa é a finalidade da ouvidoria municipal. O problema com esse órgão, como demonstrado em reportagem publicada ontem, é que ele é surdo. Isso mesmo. Na ouvidoria, ninguém ouve o cidadão.
O primeiro problema é diretamente relacionado ao aplicativo do órgão. A ferramenta simplesmente não funciona. Nossa equipe tentou enviar uma reclamação à ouvidoria por meio desse recurso. Não ultrapassamos nem sequer a fase de cadastro. O Fala Campo Grande, aplicativo desenvolvido em 2017, além de não ouvir, não deixa o cidadão falar.
No atendimento via telefone, pela Central 156, ainda mais problemas. Depois de mais de uma tentativa, uma servidora, entre as 11 que integram o órgão, recebeu a reclamação de nossa equipe. Não houve, porém, objetividade no encaminhamento da queixa nem tampouco previsibilidade em sua resolução.
Aliás, a produtividade da ouvidoria municipal é, aparentemente, baixa. No mínimo, obscura. São 11 servidores dedicados diretamente ao órgão e outros 25 que atuam em outras secretarias da prefeitura. Em meio a um cenário com aplicativo inoperante e uma central telefônica com baixa resolutividade, é possível constatar que esse grupo não é lá muito exigido.
A eficiência não comprovada levanta suspeitas sobre a repartição pública – que poderia ser muito útil – ter se transformado em mais um cabide de emprego.
Já passou da hora de o prefeito Marcos Trad reavaliar o desempenho de alguns órgãos municipais. A ouvidoria, por exemplo, criada justamente para fiscalizar o restante da administração e dar voz à população, é no momento uma das divisões da prefeitura que mais necessitam de uma releitura.
Apesar de vários sinais de que a crise econômica está sendo superada e a arrecadação do poder público está melhorando, ainda não é o momento de se dar ao luxo de manter um órgão com 36 servidores, de comprovada ineficiência. Parte do custo da ouvidoria, certamente, seria muito bem-vinda nas ruas esburacadas e nas vias públicas que, à noite, ficam na escuridão.