Artigos e Opinião

ARTIGO

Gilson Cavalcanti Ricci: "Santa Joana D'arc do Sertão"

Advogado

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Com tristeza, observo que mais de 90% dos brasileiros desconhecem a realidade histórica do Brasil. Notadamente após o governo militar, quando intelectuais de esquerda, submissos a ideologias alienígenas, passaram a manipular os currículos escolares, e assim contribuíram para deteriorar cada vez mais a má qualidade pedagógica do ensino no Brasil, notoriamente quanto à História do Brasil, cujos fatos depreciaram estupidamente. Nos governos de Lula e Dilma, a referida matéria foi maldosamente desconfigurada por narrativas facciosas em apologia ao comunismo. Muitos fatos históricos, mormente referentes à intrepidez do homem brasileiro diante dos inimigos da Pátria, foram excluídos, como se vê nas narrativas da Guerra do Paraguai e da 2ª Guerra Mundial na Itália, ficando a juventude brasileira alheia ao valor épico e moral do soldado brasileiro nesses trágicos conflitos. Tal procedimento oficial representa   abominável agressão intelectual, e desamor às coisas do Brasil, revelado por suspeitos historiadores pós-governo militar. 

Acabo de ler uma excelente crônica sobre a Guerra do Contestado, escrita pela Professora Karina Lopes, da USP. A guerra foi travada entre sertanejos e tropas do governo entre os anos de 1912 e 1916, em disputa por uma área de 30 mil km2, com população calculada em 40 mil habitantes, rica em erva-mate e madeira, abrangendo seis municípios do Paraná, e cinco de Santa Catarina, Estados que disputavam a área.

Atualmente, muitos brasileiros sequer ouviram falar desse episódio cruento, que ceifou a vida de mais de 20 mil brasileiros. O gênesis do conflito foi a doação de grande parte da área litigiosa à empresa colonizadora americana Southern Brazil Lumber Colonization Company, como incentivo à construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande, no  itinerário projetado dentro da área em litígio, o que foi contestado imediatamente pela população. Para amenizar a discórdia, o governo prometeu doar aos trabalhadores  glebas da área contestada, o que motivou grande ajuntamento de sertanejos na região.

Todavia, tanto o processo de contestação como o de doação de lotes aos trabalhadores estagnaram sem solução. Abandonados à própria sorte, os sertanejos foram à guerra. Durante o conflito, o governo mandou para lá um contingente em torno de nove mil homens, e os sertanejos formaram o “Exército Encantado de São Sebastião”, com um contingente calculado em mais de dez mil homens. A guerra foi travada com brutal violência de ambas as partes, e lances de heroísmo dignos de um longa-metragem. Comandava as tropas do governo o bravo capitão Tertuliano Potyguara, e os sertanejos o monge José Maria, homem místico, que dominava espiritualmente seus comandados, tal como Antônio Conselheiro na Guerra de Canudos, no sertão nordestino.

José Maria morreu heroicamente em combate, causando grande comoção entre os sertanejos. Uma bela adolescente, Maria Rosa, que  era apaixonada por ele, assumiu o comando da tropa com mística determinação, afirmando ter sonhado com o martírio de seu amado, e ver seu espírito subir ao paraíso conduzido pelo exército encantado de São Sebastião, pois José Maria, nas suas pregações aos sertanejos, dizia que lutaria até à morte, e “subiria ao céu carregado pelo exército encantado de São Sebastião” - daí o nome da legião sertaneja combatente.  

Maria Rosa, vestida de branco, montada no seu impetuoso cavalo branco, com uma flor no cabelo e outra no fuzil, passava diante da tropa eletrizada por sua formosura e valentia, soberba como Joana D’Arc! Seu carisma, e sua formosura, levaram seus seis mil comandados a vencer cruentas batalhas, empolgados por sua magia. Até quando ela tombou morta no combate de 28 de março de 1915, atingida pela intensa fuzilaria de Potyguara. Os próprios inimigos de Maria Rosa choraram a sua morte, aclamando-a “Santa Joana D’Arc do Sertão”.

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