Bons e Virtuosos da história humana sempre foram discretos. Será a discrição uma atitude que camufla e depois revela talentos?
É bem provável, pois cria um espaço pessoal e fortuito para fermentar revelações necessárias ao mundo. O discreto é observador, de fala mansa, convincente e mais humilde, diferente dos falantes vigorosos, que gostam de conquistar espaços no grito e não são bons escutadores de histórias, sempre são vaidosos.
Na Grécia antiga, o palco para dirigir-se ao público era ao ar livre, por isso tinham de falar alto. Hoje, temos microfones e auditórios fechados próprios para a comunicação pública. Muitos ainda copiam o modelo grego. Ainda bem que as regras eleitorais da democracia moderna nos privaram disso, mas não teve como nos ajudar a errar menos na incansável busca por representantes bons e virtuosos.
Então, nós, pobres mortais, devemos reconhecer que vamos precisar de auxílio para encontrar com mais segurança bons e virtuosos representantes. Será um auxílio divino ou as próprias regras eleitorais são suficientes? As divindades não mexem com política, só com destinos.
O exercício pleno e legal das regras do processo eleitoral começa nos diretórios partidários. É o primeiro fundamento da legitimidade democrática. Porém, é aqui que começa todo o equívoco democrático. É bom não reclamar do dicionário português, que assinala que a palavra político tem como sinônimo “astuto”.
Imagine que a regra nos partidos políticos para nível de influência começa e termina em quem é detentor de mandato. Todos os outros têm de ser alinhados e obedientes.
Usualmente, os dirigentes partidários foram colocados lá com a missão secreta de fabricar um consenso para escolher candidatos bons e virtuosos. Quase semideuses, ao dotarem os pretensos a glória de tornarem-se, agora, bons e virtuosos. Pronto, cá estamos nós, eleitores, de mãos atadas, com a missão nada secreta de apenas referendar o que já foi decidido pelo olimpo democrático.
Nessa engrenagem maquiavélica e nada democrática, a última palavra na composição da “lista de Schindler” é de quem está com mandato. Dirigentes e filiados devem ser passivos e obedientes.
Neste cenário, obtém-se um perdulário consenso fabricado. Penso que este é o primeiro parâmetro para se observar nesta campanha política – a indução (sinônimo de incitar, desvirtuar, distorcer), é a grande ferramenta da dinâmica do processo eleitoral, em um engenhoso jogo de faz de conta. É aí que mora o perigo.
É neste momento que a imprensa daria uma ajuda enorme para o amadurecimento da nossa democracia, tão fragilizada hoje. Fazer uma cobertura crítica e madura, sem paixões a partir da elaboração da lista.
Temos um ano propício para encontrar Bons e Virtuosos.
Agora, será a nossa vez de sermos bons e virtuosos na escolha. No entanto, é preciso acautelar-se com a escolha, pois o momento atual é bastante delicado. Não podemos mais nos dar ao luxo de sermos inconsequentes com a nossa mais poderosa instituição – a política.
Tal como na presunção de inocência, todos os candidatos se qualificam como boníssimos e virtuosíssimos. No entanto, indução e propaganda se fundem para diminuir a dúvida do referendo fabricado sobre a “lista de Schindler”, construindo artificialmente bons e virtuosos candidatos.
Vamos ter de ser melhores. Agora contamos com uma boa ferramenta contra a indução de massa – as redes sociais, onde a livre percepção trocada informalmente sobre perfis dos candidatos será a campanha não oficial em que o Estado não vai participar. O eleitor não quer mais ser cúmplice de um processo em que é apenas expectador passivo. Percebendo agora sua importância na delegação de poderes, quer ser participante ativo.
Podemos encontrar pessoas boas e virtuosas nas paróquias, nas ongs, na arte e na acultura, nas associações comunitárias, nas universidades, enfim, os bons e virtuosos existem e podem estar em todos os lugares, mas temos que querer encontrá-los.
Depois de pagar IPVA, IPTU, ISS, PLANO DE SAÚDE, CREDIÁRIO, ufa... ainda temos de fazer outro esforço para permanecermos com a carteirinha de cidadão, pois deste esforço dependerá a atmosfera dos quatro anos vindouros. Então, nada de preguiça eleitoral e vamos tirar nossa astúcia da gaveta.