Artigos e Opinião

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Rogério Bapstini Mendes: 'A falha da sociedade com as mulheres'

Sociólogo, doutor pela Unesp

Redação

08/03/2018 - 02h00
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A historiadora Michelle Perrot, em seu muito bem fundamentado livro “Minha história das mulheres”, descreve a existência obscura a que foram confinadas as mulheres antes de conhecerem o princípio de sua emancipação no curso das revoluções burguesa e industrial que dão forma à modernidade.

Criaturas privadas de visibilidade e de direito de participar do debate sobre a vida comum e condenadas ao silêncio tiveram por muito tempo a sua humanidade anulada. Nem mesmo a ciência e os novos saberes, na esteira das Luzes e da Ilustração, foram capazes de reconhecer a sua dignidade.

Tratadas como inferiores, as mulheres, em uma sociedade tradicional, estavam condenadas a uma espécie de escravidão. Apesar de trabalharem desde sempre, elas não passavam de ajudantes dos maridos, submetidas à lógica patrimonial das relações e do mando.

Não é por outro motivo que apareciam – e ainda aparecem em algumas situações! – como servidoras da espécie.

Daí, talvez, as funções a elas associadas no contexto da vida comum, como a reza, o fazer benzeduras, a ligação com o mundo íntimo da religião e da magia e o afastamento da ação concreta, útil e utilitária que, no mundo moderno, se exerce para além da casa e do espaço privado, na vida pública das ruas. Isso nos ajuda a compreender o seu longo confinamento à vida doméstica, na realização de uma rotina que as consome dia após dia na dependência de outro.

Mesmo que ao longo dos séculos XIX e XX, sob a lógica implacável da segunda revolução industrial e da urbanização, as mulheres tenham sido incorporadas em massa ao mundo do trabalho e gradativamente à vida pública, a sua figura continuou associada à casa e aos afazeres domésticos, configurando um novo tipo de sofrimento, como é o da dupla jornada, que acomete sobretudo as pertencentes aos estratos inferiores da sociedade.

Estas, muitas vezes, vivem a situação paradoxal de cuidarem da família de outras mulheres tornadas independentes para, depois, em uma segunda jornada, dedicarem-se à própria casa, aos maridos e filhos.

Violência que passa despercebida, pois muitas vezes ocultada sob a figura de uma mulher independente e dotada de poder numa sociedade ainda predominante masculina. A dupla submissão de uma é a libertação da outra.

Não bastasse, há a violência física e a moral, resultantes de uma história que reservou às mulheres um papel secundário em relação aos homens e fez de seus corpos objetos de satisfação e de prazer sexual.

Essa situação está longe de ser superada e afeta indiscriminadamente todos os estratos sociais, conforme demonstram as denúncias de assédio sexual que nos chegam por meio das atrizes de Hollywood ou pelas trabalhadoras nos vagões lotados dos trens.

Neste Dia Internacional da Mulher, é oportuno repensarmos a nossa condição e a oportunidade de esforços legislativos que cumpram a dupla função de proteger as mulheres e educar a sociedade.

Em um momento em que os direitos fundamentais parecem estar sob ameaça, atuar na proteção à vida, à liberdade, à integridade física e moral das mulheres é tarefa necessária para a construção da boa sociedade. Quem não estiver firme ao lado das mulheres está contra a humanidade!

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