Artigos e Opinião

OPINIÃO

Ângela Maria Costa: "Do you understand?"

Professora da UFMS, doutora em Educação

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Ano letivo começando e, mais uma vez, os tamanhos das mochilas me revelando a quantas anda a educação neste País. De tantos livros e cadernos, as mochilas passaram a ter rodinhas, como as malas de viagem, para dar conta de carregar tantos materiais. Será que é isso mesmo? Os pais ainda acreditam que, quanto maior o gasto e a quantidade de materiais didáticos, melhor é a escola? É mesmo verdade que a criança, desde o berço, precisa aprender inglês? Por que não mandarim?! Minha sobrinha-neta de apenas três anos, ao chegar da escola, teve o seguinte diálogo com a mãe: – Não entendo nada do que a professora diz! Só entendo quando ela fala japonês. A mãe pergunta; – Japonês, Bia? - Sim, a NOSSA língua! Que confusão essa escola bilíngue está fazendo na cabecinha dessa e de outras crianças!

Reflexão importante e necessária: Para que serve a EDUCAÇÃO ESCOLARIZADA? Para que serve a ESCOLA? Para responder a estas perguntas, vou me fundamentar em dois grandes educadores do século XX que eu respeito. Paulo Freire – educador, pedagogo e filósofo brasileiro. Considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial e patrono da educação brasileira – e Humberto Maturana – médico, biólogo e pesquisador chileno, que em colaboração com seu colega e compatriota Francisco Varela é o autor da chamada Teoria da Cognição de Santiago, conhecida também como “Biologia do Conhecer”.

Para Paulo Freire, não existe apenas uma educação, mas educações, isto é, “[...] formas diferentes de os seres humanos partirem do que são para o que querem ser” (ROMÃO, 2008a, p. 150). E, referente à educação formal (escolar), identifica duas formas predominantes de educar. A “Educação Bancária”, que oprime, aliena, desumaniza os seres humanos, e a “Educação Libertadora”, que prima pela conscientização, pela autonomia e pela humanização. Para ele, a educação “[...] deve ser trabalhada intencionalmente para humanizar o mundo por meio de uma formação cultural e da práxis transformadora de todos os cidadãos sujeitos da sua história [...]”.

Já Humberto Maturana acredita que não é a racionalidade, mas, sim, as emoções que regem nossas ações e mesmo o nosso pensamento mais formal, isto é, agimos e pensamos segundo as nossas emoções. Apresenta uma proposta de educação baseada em princípios fraternos e éticos, de convivência entre seres humanos e o mundo que lhes rodeia. 

Considera o respeito e aceitação como princípios fundamentais dessa educação e questiona a competição como um fenômeno cultural humano de negação, derrota e destruição do outro, inexistente no mundo natural – os seres vivos não humanos não competem, fluem entre si e com outros, em vez de negá-los. E mais, coloca o amor como o princípio fundamental de toda interrelação viva. 

Esses dois educadores nos alertam para o rumo errado que estamos tomando. Com preguiça de pensar e medo de mudar (concorrência), as escolas e os sistemas de ensino continuam oferecendo o mesmo de sempre. Pintam as fachadas, sem oferecer absolutamente NADA de novo! Continuamos a ver as aulas separadas por disciplinas que nem sequer interagem. Conteúdos desinteressantes e desnecessários.

Decoreba (memorização) como regra. Carteiras dispostas em fileiras (para os alunos não interagirem), professores na frente do quadro (branco, verde, preto) falando e tentando passar toda sua sabedência, desde a pré-escola (crianças de quatro anos). Estamos muito longe de educar essas crianças e jovens para o século XXI, em que seria necessário levar o aluno a aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conhecer e aprender a viver junto (Relatório Jaques Delors).

Enquanto isso, nas salas de todos os níveis, estamos ensinando a falar inglês, alemão, francês e muito pouco o português, ou japonês, como afirma a Bia! 

DO YOU UNDERSTAND?

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