Com receita de dar inveja a muitos municípios de Mato Grosso do Sul, a Santa Casa precisa ser mais transparente quanto ao destino dos recursos públicos que utiliza.
Pouco mais de 100 anos depois de sua fundação, parece ter restado pouco ou quase nada do que motivou o surgimento da Associação Beneficente de Campo Grande, responsável por administrar a Santa Casa.
No passado, a instituição, na época ainda chamada de Sociedade Beneficente de Campo Grande (SBCG), era mantida por doação de famílias, com o objetivo de ajudar o próximo. Deste propósito, só sobrou o nome. Ao que tudo indica, a Santa Casa pouco lembra uma fundação – seu status jurídico – e mais se parece com uma empresa.
O problema é que o hospital também administra recursos públicos, e não são poucos. É nada mais que a maior parte de seu faturamento.
O orçamento para atender pacientes da rede pública de Saúde é de dar inveja a muitos municípios de Mato Grosso do Sul, pois passa dos R$ 20 milhões mensais, como mostra matéria do Correio do Estado desta terça-feira.
Mesmo assim, parece um saco sem fundo. No ano passado, a instituição já havia pedido aumento nos repasses. No mesmo período, o pronto-socorro suspendeu o atendimento, exceto de pacientes regulados – que já passaram por outras unidades de saúde.
Agora, para colocar em funcionamento a Unidade de Trauma, inaugurada no fim de semana, com 26 anos de atraso, diga-se de passagem, a Santa Casa solicitou recurso de R$ 10 milhões. Destes, cerca de R$ 6,2 milhões foram prometidos pelo governo federal; R$ 1,9 milhão, também estimados, foram garantidos pelo Estado e restaria ao município R$ 1,9 milhão.
Porém, os órgãos públicos resolveram bater o pé, e com razão. Um dos principais questionamentos da prefeitura é a falta de transparência em todo o processo.
O único lado bastante conhecido por quem depende do serviço público de saúde são as longas filas de espera. Reforçando: apenas quem depende do serviço público, uma vez que o atendimento da rede privada só tende a crescer.
Por ser beneficente – que de caridosa tem pouco –, a fundação precisa prestar contas do que faz, em respeito à população e também aos seus associados. Essa preocupação deveria ser ainda maior quando envolve recurso público. Os questionamentos começam em quanto será necessário para manter a Unidade de Trauma.
Fala-se em R$ 10 milhões ao mês, mas, em divulgação do governo do Estado, o valor é de R$ 74,4 milhões anuais. Será que essa diferença já está prevendo o novo contrato, que deve começar a produzir efeitos em julho e pode travar por um tempo ainda maior o tão esperado funcionamento da Unidade de Trauma?
O balanço financeiro atualizado da Santa Casa pode ser facilmente acessado? São essas perguntas que ficam no ar. As finanças do hospital mais parecem uma caixa-preta. A expectativa, no entanto, é de que não haja necessidade de uma explosão para que ela possa ser aberta.