Em meio aos muitos livros da minha biblioteca, um me causa especial emoção. É, na verdade, um caderno de recordações de capa de couro, daqueles que fazíamos circular entre os amigos, na adolescência, em que todos respondiam as mesmas perguntas e deixavam um poema ali inscrito.
Mas o meu, este que me emociona, foi usado apenas pelo meu pai para copiar poemas, os seus preferidos, quando, ainda solteiro, foi morar numa cidadezinha do interior do Paraná, um lugarejo onde ele era prático de farmácia. Entre 1946 e 1948 ele copiou a palavra dos poetas para vencer a solidão.
Nunca tinha aberto aquele caderno porque me lembro que ficava guardado num lado da estante que não me atraía a atenção, entre enciclopédias, livros de História e de Medicina Natural.
Pensava que fosse mais um caderno de anotações. Anos depois da morte de meu pai, meu irmão mais novo o deu para mim, achando que seria mais “útil” para uma professora de Literatura. Minha surpresa maior, dentre muitas outras, foi encontrar poemas modernistas ali anotados, como, por exemplo, “Desencanto”, de Manuel Bandeira:
“Eu faço versos como quem chora/ de desalento... de desencanto... /fecha meu livro, se por agora/ não tem motivos nenhum de pranto./ Meu verso é sangue. Volúpia ardente.../ Tristeza esparsa... remorso vão/Dói-me nas veias. Amargo e quente,/Cai, gota a gota, do coração./ E nestes versos de angústia rouca/ Assim dos lábios a vida corre,/Deixando um acre sabor na boca./ – Eu faço versos como quem morre”.
Fiquei emocionadíssima não só porque este é um dos meus poemas favoritos, mas porque era com ele que eu iniciava as minhas aulas de Teoria Literária sobre versificação. Manuel Bandeira dominou como poucos a poética clássica com formas, acentos, ritmos e rimas.
É fácil encontrar em sua obra exemplos para estudar sonetos, odes, baladas, redondilhas, rondós e tudo o mais que um professor precisar.
Foi neste domínio que Manuel Bandeira encontrou a possibilidade de romper com todas as normas, fazendo a opção pelo verso livre, voando como uma andorinha à toa.
Ao buscar uma estrela para a vida inteira, o poeta dispensou-se do lirismo comedido, do lirismo funcionário público que vai ao dicionário buscar o cunho vernáculo do vocábulo e que, com isto, perde o sentido da vida que, pulsando, passa ao lado. O poeta das cinzas das horas, pelo contrário, buscou a palavra na poesia.
No caderno do meu pai, Bandeira se faz acompanhar de Cecília Meireles, Florbela Espanca e, claro, de muitos outros poetas romântico-parnasianos. Até Machado de Assis está lá. No entanto, o que eu gostei, mas gostei mesmo, foi de saber que, em casa, alguém mais, antes de mim, perdeu tempo com a poesia. P de pai, também.