As sucessivas tentativas de congressistas, pouco nacionalistas, de liberar a venda de terras para estrangeiros são a prova de que muitos brasileiros ainda pensam como colonizados.
Há alguns fatos do domínio de todos, mesmo daqueles que pouco se informam. Um destes supera o enquadramento no conceito de clichê: as riquezas naturais do território brasileiro. Joaquim Osório Duque Estrada, autor da letra do Hino Nacional, foi muito feliz ao utilizar os termos “berço esplêndido”, “risonhos campos (que) têm mais flores” e nossos “bosques têm mais vida”. Sim. Somos “gigantes pela própria natureza”, como bem disse o letrista.
O problema que decorre deste gigantismo e da “bênção” recebida da mãe natureza é termos nos acomodado quanto ao suprimento das nossas necessidades básicas. As ditas riquezas estão aí para isso. De uma forma genérica, o brasileiro nunca se incomodou muito com a escassez de recursos naturais. É uma terra – e aí vai outro clichê – em que tudo o que se planta, floresce. Não é por acaso que somos os campeões mundiais na produção de commodities agrícolas e minerais, e também de subprodutos da pecuária, como as carnes bovina, suína e de frango.
Quando os portugueses desembarcaram em nosso território, há pouco mais de 500 anos, depararam-se com os índios, os primeiros habitantes, muito bem servidos pelo meio ambiente. Em uma época em que a Europa mais precisava de comida e de bens mercantis de outros continentes, a produção desta terra, recém-descoberta, ajudou – e bastante – na manutenção e na construção dos bons padrões do velho continente.
Nossa soberania sempre foi muito relativizada. E continua sendo. Agora, talvez mais ainda. As sucessivas tentativas de congressistas, pouco nacionalistas, de liberar a venda de terras para estrangeiros são a prova de que o desejo entreguista – sob a perspectiva do colonizado – permanece entre muitos brasileiros. A justificativa dos parlamentares que almejam entregar parte de nosso território aos compradores internacionais não ultrapassa as frases prontas, repetidas por eles como um mantra do argumento raso: “atração de investimentos”, “modernização”, “aproveitar as oportunidades”.
Em reportagem publicada na edição de ontem, por exemplo, o deputado Newton Cardoso Júnior, do estado de Minas Gerais, alega que a proposta para liberação da compra de terras por pessoas físicas e jurídicas de outros países “destravaria” investimentos na área de celulose. Talvez os olhos do parlamentar (e de muitos outros que pensam como ele) não vejam além da cifra.
Possivelmente os que pouco se importam com a possibilidade de parte do nosso território pertencer a pessoas que moram em outros países encarem isso como “mais um negócio”. Pobre do Brasil, ter filhos que pensam desta forma. Se em 1980, na música “Aluga-se”, Raul Seixas cantou que a “solução era alugar o Brasil”, com uma ironia que, 38 anos depois, muitos não entenderam. Hoje, para estes que (até agora não interpretaram a citada figura de linguagem), por ingenuidade ou má-fé, querem passar nosso território aos que vêm de fora. Então a solução é “vender” o País, desde que eles lucrem com isso. Lamentável.