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Cenas

Leia a crônica de Oswaldo Barbosa de Almeida: "Coragem"

Leia a crônica de Oswaldo Barbosa <br>de Almeida: "Coragem"

Ele dizia não ter medo de nada. Fantasmas, lobisomem, capeta, boi da cara preta, mula sem cabeça. Para ele, não passavam de bobagens. Zombava de quem, porventura, manifestasse qualquer receio de alguma entidade como essas. Era gaúcho, morava sozinho num sítio próximo da cidade e tinha o hábito de acordar muito cedo. 

Ainda distante do nascer do sol, fazia sua cuia de chimarrão, sentava-se na varanda da casa e, calmamente, sorvia a água quente e amarga. Curtia aquele ritual sem pressa, geralmente remoendo as saudades do seu torrão natal, a rica terra dos pampas imensos, das coxilhas a perder de vista, por onde percorrera longas distâncias junto aos companheiros, em grandes pelejas nas seguidas revoluções de que participara, sob o comando de grandes vultos da história sul-rio-grandense. Orgulhava-se dessas aventuras, e sempre que tinha plateia, narrava suas gauchescas façanhas.

Morava sozinho não por opção, mas por força das circunstâncias: seus pais já haviam falecido quando foi forçado a arribar para outras bandas. Seus dois únicos irmãos haviam falecido em combates de que também participaram ao seu lado, e alguns parentes que tinha por lá estavam um tanto distanciados por divergências políticas e havia tempos não se viam. A chinoca por quem se apaixonara o havia trocado por outro, levando-o a desacreditar da sinceridade das mulheres, pelo que decidiu manter-se solteiro. 

Viera para estas bandas fugindo de inimigos que o juraram de morte, por ter assassinado um adversário em uma refrega por questões políticas. Era corajoso, mas, pelo sim pelo não, preferiu não correr o risco de uma emboscada ou coisa que o valha. 

Por aqui estabeleceu relações com outros conterrâneos também retirantes da amada terra, e ora os recebia em seu sítio para animadas rodadas de churrasco e chimarrão, ora os visitava a convite, também para confraternizações e muitas horas de proseio e recordações. No sítio possuía um bom pomar, pequena lavoura e criava algumas vacas de leite, porcos e ovelhas, o suficiente para sua sobrevivência e seus gastos pessoais. Tinha a ajuda de um empregado que morava nas proximidades.

Numa dessas madrugadas solitárias, degustando o mate amargo, viu surgir diante de si ninguém menos que ele! Sim, ele, o capeta, o cão dos infernos, o belzebu! Ficou paralisado por alguns segundos, encarando a horripilante criatura, que exalava forte cheiro de enxofre. Quando quis levantar-se para alguma ação, não conseguiu: estava imobilizado por uma força superior às suas. Perguntou à criatura o que desejava dele, mas não obteve resposta. Aos poucos aquele ser medonho foi se transformando e em sua frente apareceu o homem morto por ele no passado, dizendo que viera acertar as contas.

Libertando-se da força que o prendia sentado, atirou-se contra o vulto negro, mas só encontrou o vazio. Com os primeiros clarões do dia surgindo no horizonte, aquilo foi se esvaindo até desaparecer completamente. Guardou consigo o segredo, pois ninguém iria acreditar em sua história.

*OSWALDO BARBOSA DE ALMEIDA, da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras

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