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José Neres: "Por uma educação no trânsito"

Professor, pesquisador e membro da AML e da Sobrames

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Ninguém precisa ser especialista em trânsito para perceber alguns absurdos cometidos diariamente por condutores, pedestres e, até mesmo, pelos gestores responsáveis pela orientação e pela organização do fluxo de mobilidade de pessoas e de veículos nas cidades brasileiras de pequeno, médio ou grande porte.

Raras são as pessoas que ainda não presenciaram, foram vítimas ou causadoras de algum acidente nas vias públicas de nosso país. Com um conhecimento mínimo do que diz o Código de Trânsito Brasileiro e com disponibilidade de tempo, é possível, em poucos minutos, observar condutores parando seus veículos em filas duplas, sobre faixas de pedestres ou dirigindo enquanto digitam mensagens ou falam ao celular, falta de sinalização adequada nas vias, pessoas arriscando a vida para atravessar ruas e avenidas em locais proibidos, agentes de trânsito atônitos diante do caos instalado.

O resultado de tudo isso se traduz não apenas em forma de astronômicas cifras destinadas à minimização dos danos causados pelas constantes colisões e atropelamentos que acabam gerando ações de indenização pecuniária e processos na Justiça, como também pela irreparável perda de material humano, seja por morte, seja por afastamento do trabalho por conta de traumas físicos e psicológicos.

Os números são assustadores. Segundo dados do Ministério da Saúde, no intervalo compreendido entre 2010 e 2017, o total de 394.158 pessoas perderam a vida no trânsito brasileiro e quase três milhões (2.929.692) de indivíduos tiveram algum tipo de invalidez por conta de acidentes com veículos automotivos.

Muito mais que dados estatísticos, os números acima podem ser indicadores da necessidade de uma educação voltada para um convívio harmonioso de pessoas e máquinas em um trânsito cada dia mais caótico, com ênfase na proteção da vida dos seres humanos e na proteção do direito de ir e vir, sem traumas e sequelas causados por possíveis acidentes.

Educação para o trânsito deveria ser um tema mais explorado em todos os níveis da educação formal e, até mesmo, da não formal em nosso país, já que interfere diretamente não apenas no comportamento do cidadão, mas também na saúde e na economia do País, bem como no bem-estar da população em geral.

Se houver uma campanha sólida de educação para o trânsito, as pessoas poderão perceber que conduzir um veículo automotor vai além da capacidade de fazer o deslocamento do ponto A para o ponto B sem pensar nas consequências e nos obstáculos e nas implicações desse ato para os indivíduos, para o meio ambiente e para a coletividade.

As medidas punitivas comumente aplicadas a quem é flagrado cometendo infrações no trânsito não podem ser tomadas como única maneira de educar. Sem dúvida que em alguns casos é necessário utilizar multas como medida pedagógica, para evitar a recorrência de infrações, no entanto, resumir tudo a questões pecuniárias pode levar alguém a confundir pagar boleto com autorização para continuar cometendo barbaridades ao volante.

Um projeto que envolva condutores e não condutores, crianças, adultos e profissionais das mais diversas áreas, a fim de eliminar vícios e de disciplinar atitudes, seria essencial para fazer as atuais e as futuras gerações perceberem que dirigir um carro, caminhão ou conduzir uma moto não deve ser confundido com portar uma arma.

Uma verdadeira educação para o trânsito deve ser vista como uma forma eficaz de economizar recursos que podem ser aplicados em outras áreas também urgentes e, principalmente, uma forma de preservar a vida e a integridade física de milhares de pessoas que não deveriam fazer parte de uma perversa estatística.

 

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