A redução vai representar renúncia fiscal de R$ 9,5 bi. Essa conta será cobrada dos consumidores e outros setores produtivos, que começam a perder a paciência.
Assim como ocorreu com as manifestações sobre o reajuste da tarifa de ônibus, em São Paulo, a paralisação dos caminhoneiros e as manifestações em apoio que estão surgindo deixaram de ser somente pelo preço do diesel. A greve parece ter sido a gota que faltava para uma série de protestos, e motivos a população ainda terá: antes mesmo de encerrar a paralisação dos caminhoneiros por todo o Brasil, o governo federal já deixou claro que a redução do preço do diesel em R$ 0,46 o litro vai representar uma renúncia fiscal da União de R$ 9,5 bilhões em 60 dias, e que essa conta será cobrada da população. Se não bastassem todos os prejuízos que já estão pesando no bolso do consumidor e do setor produtivo com a greve – cuja pauta é justa - e os reflexos que ainda virão, o governo, mais uma vez, tenta empurrar para outros uma promessa feita por ele.
A União divide o cobertor já curto entre população e caminhoneiros, mas mantém intactos os edredons dos seus. Enquanto cede redução no preço do diesel e admite aumento de outros tributos – que ainda não foram detalhados –, o Poder Executivo, que tem um dos piores índices de popularidade da história, mantém todos os seus benefícios. Só de folha de pagamento dos três poderes, Legislativo, Executivo e Judiciário, foram gastos R$ 96 bilhões no ano passado. Deste total, R$ 43,3 bilhões eram só de gratificações e incentivos, ou seja, a cada R$ 100 de despesa de salário, R$ 77 são com esses benefícios. Só em auxílio-moradia de magistrados a senadores, foram gastos R$ 817 milhões em 2017, fora tantos outros penduricalhos que alguns membros desses três poderes têm direito.
Este novo anúncio do governo Temer ainda o coloca em situação mais delicada. Agora, entraram na pauta de manifestações – cada vez mais – o preço da gasolina e do etanol, a corrupção, a carga tributária elevada e assim vai. A má condução na crise dos caminhoneiros e o cansaço dos brasileiros podem ser apenas o começo do que o economista e filósofo Eduardo Giannetti classificou como “uma rebelião tributária”. Qualquer faísca pode dar início a um movimento de grandes proporções, e não se vê uma ação efetiva para controlar, de fato, a situação e evitar mais reações de outras instituições.
Um dos pontos altos dessa crise está na política de precificação da Petrobras, que atravessa essa greve sem nenhum tipo de alteração. Todas as ações anunciadas até o momento são do governo federal, e a conta virá para o contribuinte. Embora próximo de se tornar autossuficiente em petróleo, o Brasil ocupa a 91ª posição entre os países com a gasolina mais barata – a Venezuela aparece em primeiro lugar, com R$ 0,04 o litro, mesmo em uma das suas piores crises. Ainda no ranking estão países como Irã (R$ 1,02 o litro) e Sudão (R$ 1,27). O motivo dessa diferença com o Brasil? Estes países comprometem recursos fiscais para subsidiar a gasolina para seus cidadãos.
Desde que foi adotada essa nova política de preços, a Petrobras, mais do que acompanhar o mercado internacional, está jogando para o consumidor todo o prejuízo com anos de corrupção e preços congelados. Recentemente, a estatal também anunciou a venda de refinarias e redes de distribuição – mais um modelo de negócio que dificilmente beneficiara o consumidor final. Afinal, a estatal pode se manter com a maioria da participação e, consequentemente, com o controle.