A presente crise, provocada pela greve do transporte rodoviário, traz à luz problemas crônicos, como o primado da matriz rodoviária, alternativa logística quase exclusiva para a movimentação de cargas no País. Quando, na década dos 50, o governo optou por privilegiar o caminhão, em detrimento dos trens e embarcações, visava ao incremento da indústria automobilística nacional, recém-instalada no Brasil. Entretanto, o nó górdio da questão foi sucatear e, depois, propriamente, destruir a sua malha ferroviária. O Estado de São Paulo, com maior número de ferrovias, foi o mais atingido. O caso da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, aqui em Mato Grosso do Sul, é um bom exemplo do desmonte.
Se mais de 90% de todas as cargas transportadas o são por rodovias, fica patente a dependência de todos ao setor de transportes rodoviários; o caos, agora instalado, põe a nu essa vulnerabilidade. Tudo está em compasso de paralisação, com severos reflexos nos mais diversos setores da economia, com impactos sociais visíveis, como a piora das condições dos transportes de massa, por exemplo, sem mencionar os riscos para a oferta de serviços de saúde e de segurança, entre outros, atingindo de diferentes formas o cotidiano dos cidadãos.
A origem do movimento grevista, recebido com maciço apoio popular, a despeito dos transtornos causados, reside no valor exorbitante cobrado pelos combustíveis, sujeitos a uma política de preços livres, flutuantes, regulados pelas cotações internacionais, conforme decidiu a Petrobras, com a anuência da Agência Nacional de Petróleo.
Aqui, impõe-se um recuo na História. Em meados do século passado, uma campanha, sob o mote “O Petróleo é Nosso!”, mobilizou a sociedade civil organizada em defesa dos interesses nacionais, conseguindo preservar o monopólio da sua exploração, refino e distribuição. Para tanto, em 1953, foi criada a Petrobras, uma empresa, ainda hoje estatal, apesar de seu capital ser aberto. Esse monopólio vigorou até 2004. Daí em diante, houve mudanças; todavia, a prática de preço administrado adotada pelo governo, isto é, regulado por variáveis outras, além daquelas determinadas pela lei da oferta e da procura, foi mantida.
E por que o preço dos combustíveis, historicamente, foi administrado? Porque se trata de um insumo com capacidade de impactar toda a cadeia produtiva. Porque, quando o País era ainda dependente de importações, havia as implicações decorrentes do câmbio; porque, enfim, não se pode tratar um produto dessa importância estratégica, vital para a segurança nacional, como qualquer outra mercadoria.
Com a chegada dos paladinos do neoliberalismo, rendendo graças e subserviência ao Deus Mercado, tudo se transforma. De sua parte, esse governo enfraquecido afirma que não tem espaço de manobra para fazer recuar os preços, como se a Petrobras não fosse mais uma empresa estatal, com seu presidente nomeado pela autoridade máxima da República e seus diretores ungidos em um loteamento comandado por políticos de alto escalão. A situação chega ao paroxismo quando Pedro Parente, presidente da empresa, diz que reduzirá 10% do preço do óleo diesel durante quinze dias e nada além disso. Ora, quantos votos teve esse senhor para manter postura tão arrogante, surdo ao clamor popular, cego à escalada de desordem que se instala, insensível à grave crise política que essa decisão alimenta?
E esse dado é excluído da discussão, inclusive pela mídia, como se a política de preços livres adotada nos últimos tempos fosse um dogma de fé, inquestionável. O máximo que discutem é a carga tributária incidente sobre os combustíveis. Por mais que a Petrobras, dilapidada ao longo de toda a sua história, venha sofrer prejuízo, seus interesses não podem se sobrepor aos da Nação.
É óbvio que há prática de locaute, afinal, os caminhoneiros autônomos, responsáveis por apenas 30% dos fretes, são uma categoria sem tradição de luta para dar conta de tamanha organização, capaz de captar essa adesão colossal, fruto da rejeição à classe política e à corrupção. Isso requer um bom planejamento, feito por gente que entenda do riscado.
É evidente, também, o oportunismo de políticos e de movimentos que, embora até 27/05 não tivessem saído à rua com suas bandeiras, estão agindo abertamente, adeptos do quanto pior, melhor. Coincidência ou não, a paralisação começa um dia após o anúncio da candidatura de Henrique Meirelles. E a população, sem perceber essas manobras, desatenta à palavra de ordem dos caminhoneiros “intervenção militar já”, mantém seu apoio à greve, em razão do elevado preço da gasolina, que seguirá inalterado, pois, segundo Eliseu Padilha, ministro da Casa Civil, não entrou na pauta de reivindicações dos grevistas. Age como uma Maria Antonieta!
O governo anunciou um acordo com lideranças da categoria e ele não foi cumprido. Será que esses líderes tinham representatividade? O governo não dispunha de meios para se informar? Ou terá sido manobra para simular que agia? Com a edição do decreto, autorizando a convocação do Exército para dissolver piquetes e garantir abastecimento de combustíveis, tenta dar mostras de uma força que não tem. A situação é caótica. Já não é necessário mais nada para saber que a gestão Temer acabou.
Será nesse vácuo de poder que se desenrolará a campanha eleitoral (se houver eleições), com toda a empulhação ensejada por essa alarmante conjuntura; não faltarão salvadores da pátria. Os riscos para a democracia brasileira são palpáveis. Aos que guardam a trágica memória da ditadura, nesse momento de extrema gravidade da vida nacional, resta se unirem em defesa do ideário democrático, acima de paixões partidárias, religiosas ou provincianas, para se evitar a reprise de um filme triste.