Sobre a greve dos caminhoneiros: o bom senso sempre anda acompanhado da razão. Quem perde um, fica sem o outro.
A pressão sobre o custo de vida da população, causada por fatores como a política de aumentos diários no preço dos combustíveis, imposta pela Petrobras – empresa estatal, mas com gestão ortodoxa, voltada para o mercado, que ignora que seu sócio majoritário visa o interesse público –, foi o ingrediente principal no caldo que “engrossou” a greve dos caminhoneiros e deu, nos primeiros dias, a legitimidade que estes profissionais das estradas precisavam. Praticamente não havia quem não questionasse os números oficiais do governo federal, que mostravam inflação baixa e uma artificial melhora na economia. Os que apoiaram o movimento dos profissionais do transporte o fizeram porque, na vida real, tudo estava ficando mais caro, enquanto a inflação só baixava.
A greve, que ontem chegou ao seu nono dia, foi vitoriosa em seus primeiros momentos. Como já explicamos, essa vitória ocorreu pela forte adesão da população brasileira que, historicamente, sempre foi majoritariamente contrária a movimentos grevistas. Tal apelo (literalmente, pois os caminhoneiros já não resistiam mais ao cenário economicamente sufocante que antecedeu o movimento) levou o governo federal a atender a todas as reivindicações dos profissionais, como o congelamento por 60 dias de uma redução de 10% no preço do óleo diesel, o reajuste da tabela mínima de frete, a mudança na forma de cobrança do pedágio e a liberação de parte das cargas da Companhia Brasileira de Abastecimento (Conab) para caminhoneiros autônomos. Os líderes destas categorias aceitaram o acordo. Suas bases, já descontroladas, não.
E o descontrole é o problema. A negociação foi feita com órgãos que deveriam fazer jus ao status da sociedade civil organizada. Mas o que se vê é muita desorganização. E as consequências desta anarquia pós-protestos poderão ser o caos, que já começa a ser vivido em todo o País. Já passou da hora de se ter bom senso, sob pena de um movimento apoiado por todos passar a ser condenado pelos mesmos que o entendem como justo (até então).
É claro, a indignação permanece. Há uma grande insatisfação com políticos e gestores de estatais. Mas isso pode ser resolvido em uma outra etapa. A ruptura, no momento, poderia dar lugar a uma barbárie, o que é preocupante. Aliás, o limite entre a ordem e o caos é muito tênue, e o fiel da balança não são as regras, mas, sobretudo, o bom senso. Aliás, o bom senso sempre anda acompanhado da razão. Quem perde um, fica sem o outro.
O início da manifestação foi importante. Mostrou aos governantes que eles devem dar ouvidos ao povo e que o Estado não existe para servi-los. As consequências, porém, serão pagas por todos – pelos que apoiaram e até mesmo pelos que pararam seus caminhões. Apesar de o preço do diesel baixar, nos próximos meses, a produção será baixa, a arrecadação dos governos também e, consequentemente, haverá menor demanda por transportes.