Em mais um dos exames médico/clínicos que realizei, na busca por uma solução da tontura que me acometeu logo após a alta hospitalar da cirurgia cardíaca, ocorrida em dezembro de 2017, estava eu numa clínica, a esperar pela chamada para o procedimento (longa espera), quando passei a observar as pessoas que também ali estavam com o mesmo objetivo (realização de exames para diagnosticar seus males físicos). Sala lotada, visto que o estabelecimento realiza uma gama de exames.
Havia alguns tipos curiosos ou que despertavam a atenção dos demais presentes. Abro um parêntesis para dizer que a palavra “demais” lembrou-me uma expressão atribuída a Tancredo Neves, o presidente que foi sem nunca ter sido: diz-se que ele e um grupo iriam empreender uma viagem de carro. Alguém comandou: “Vamos neste; o resto vai no outro”. Tancredo corrigiu na hora: “O resto, não! Os demais”. Para ele era indigno chamar seres humanos de “resto”.
Voltemos aos angustiados presentes na sala de espera. Havia um casalzinho que aparentava ser muito jovem. Não se sabia se eram namorados, noivos ou casados, pois hoje em dia isso não faz muita diferença, mas demonstravam ter muito amor pra dar, pois ficavam abraçados o tempo todo, trocando beijinhos e sussurrando um no ouvido do outro. Fiquei especulando se ambos iriam ser examinados ou apenas um deles, servindo o outro apenas de acompanhante. Nesta última hipótese, qual seria a ocupação dele/dela? O que seria apenas acompanhante estaria faltando ao trabalho? Ou exercia atividade autônoma ou liberal? Bem, não seria natural ou de bom tom fazer-lhes tais perguntas. Não pareciam preocupados com os exames a que seria(m) submetido(s).
Deixando de lado os pombinhos apaixonados, observei um senhor na casa dos sessenta anos de idade, um pouco baixo e rotundo, que chegou e dirigiu-se logo para um aparador sobre o qual havia a clássica bandeja com garrafas térmicas contendo café e chá; havia também dois recipientes com biscoitos industrializados, um deles, por sinal, muito apreciado por mim (eu estava em jejum desde a noite anterior, por exigência do exame que faria, e beliscar algumas, só depois). Já o cidadão não se fez de rogado: encheu um copo plástico com chá e passou a sorver a bebida e atacar avidamente as bolachinhas, como se estivesse com muita fome. Nesse instante passa por ali uma funcionária da clínica e o admoesta: “O senhor não vai fazer ultrassom? Tem de ficar em jejum!”. E ele, assustado: “Ih, me esqueci!”. Foi repreendido e orientado a voltar no dia seguinte.
Sentadas ao meu lado havia uma senhora de idade avançada e sua acompanhante, de meia idade, que deveria ser sua filha. Chegaram depois de mim e observei que a idosa se locomovia com dificuldades. Ela parecia muito angustiada e sofredora: gemia um pouco e perguntava constantemente à outra se ainda faltava muito tempo para ser atendida.
Meu nome foi anunciado por uma funcionária, que me encaminhou para a sala de exames, ficando os demais na sala, com suas dores e sofrimentos.
*Oswaldo Barbosa de Almeida, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e da UBE-MS