Artigos e Opinião

COMPORTAMENTO

Roberta D'Albuquerque: "Doce de jaca"

Roberta D'Albuquerque: "Doce de jaca"

Pai, mãe e duas filhas tinham o desejo de ter uma casa na praia. Moravam pertíssimo do mar, morariam quase na areia alguns anos depois dos dias da “faca de se jogar fora”, e ainda assim nutriam a fantasia da casinha avarandada, com uma rede para cada um, um terraço cheio de vento quente, uma padaria para comprar pão doce de goiabada ruim (mas bom), um carro com o porta-malas cheio às sextas-feiras, um domingo de volta para a cidade. Tinham os quatro o sonho de construir memórias de veraneio.

Nunca compraram a casa, chegaram a ter um terreno e um desenho na mão, mas venderam o lugar antes do primeiro tijolo. Vez por outra, separavam um janeiro para testar o litoral. Como se comprometer sem antes experimentar a geografia? Tamandaré, Carneiros, Serrambi. Voltavam cheios de promessas e braços marcados de sol e muriçoca. Mas bastava março encostar em fevereiro e os planos das férias de julho se avizinharem para biquínis e projetos encontrarem espaço no fundo da gaveta.

Ontem, depois de um almoço no inverno paulistano gelado, tive a certeza de que mesmo sem a casa, vivemos uma infância de rede e vento quente. Veraneamos. Estávamos, meu companheiro e eu, em um restaurante nordestino, entregues a carne de sol, cuscuz e macaxeira molinha, queijo coalho e manteiga de garrafa. Já certa de negar a sobremesa e partir para o café coado, na vontade de desabotoar a calça tamanha a devoção gastronômica, ouvi dele o pedido. Queria quebra-queixo e doce de jaca. Pelo menos uns vinte anos me separavam da última vez que comi jaca.

Já na primeira colherada do doce, lembrei-me de meu pai que a cada uma das casas de temporada alugadas, emprestadas, visitadas, resmungava aos risos que a faca que descascara a jaca para o doce era agora de se jogar fora de tão grudenda. Minha mãe levava os bagos da fruta para o fogo com água e açúcar e precisava de menos de meia hora para transformar os três ingredientes na melhor sobremesa do mundo. Lembrei-me de minha irmã me levando pelo braço enquanto perseguíamos o barulho do sininho do vendedor de quebra-queixo, patrimônio imaterial das tardes do litoral pernambucano.

Memórias construídas não a cimento e tijolo, mas a jaca, açúcar, coco e jogos de talheres incompletos. Viva Ana Maria, João e Poly: minhas férias, meus doces, o sol nordestino que carrego sempre comigo.

* Roberta D'Albuquerque é psicanalista, escreve semanalmente neste espaço e em diversos jornais do Brasil sobre infância e comportamento, é autora de Quem manda aqui sou eu - Verdades inconfessáveis sobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que...

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