Mistério cósmico! A mente voa por lonjuras siderais, como um pássaro livre. Admiro as coisas do passado. Coisas que deixaram marcas indeléveis. Como uma foto de 1940, ilustrada sobre a capa de um antigo tango portenho, que me dá trelas à imaginação. É um instantâneo de músicos da glamorosa orquestra típica de tangos de Carlos di Sarli, acompanhados do célebre maestro em alguma comemoração. Sem deteriorar após setenta e oito anos daquele instantâneo festivo, a foto mostra o notável filho de imigrantes italianos no saguão do teatro, à frente de seus músicos. Na foto, uma moça de uns trinta anos de idade, vestida impecavelmente, sorri feliz no meio daqueles expoentes do tango rio-platense, exibindo seu porte elegante e seu belo rosto juvenil.
Oito décadas passadas de um momento fugaz da vida! O encanto jovial da moça perpetuou-se naquela foto, como se zombasse da vulnerabilidade do ser humano à voragem do tempo. E, num milagre da tecnologia, eternizou a alegria daquele momento efêmero de juventude. A perplexidade faz meus neurônios alvoroçar. Arquiteto na mente febril o dia seguinte daquele efusivo instantâneo fotográfico: depois da reunião, todos se separam e seguem cada qual às suas distantes vivendas situadas nos bairros periféricos da cidade grande, a caminharem soturnos sob as estrelas brilhantes da suave noite portenha.
Na volúpia imaginária, vejo a moça vestida de noiva, saindo da igreja de braços com seu noivo, quiçá um dos músicos da famosa orquestra típica de tangos. Vejo-a jogar para trás o buquê de flores, o qual donzelas casadoiras disputam acirradamente! Depois do ato, a vida conjugal dos novos consortes flutua no meu raciocínio circunspecto, flagrando cenas triviais do dia a dia do casal: filhos na escola, depois a adolescência e finalmente a liberdade deles, partindo cada um aos seus desígnios.
O tempo vai passando mansinho por décadas afora, e o fascínio da moça da foto permanece hirto no flash eterno da câmera fotográfica. Ainda em transe, vejo-a ao espelho, surpreendida pelos primeiros fios brancos de cabelo. Constrangida, tenta livrar-se deles, mas não adianta escondê-los de si própria. É a velhice fatal, sorrateira! Compara-se ao esposo – outrora mancebo elegante – e agora vê seu corpo deformado pela obesidade, com as têmporas embranquecidas e o rosto marcado pelas mãos inclementes do tempo. Chora em silêncio. O marido não é mais bandoneista na orquestra típica de tangos. Tornou-se um velho triste aposentado, vivendo dos parcos proventos da aposentadoria. Não tarda, falece vitimado por fulminante ataque cardíaco. Depois de sepultar o marido, a moça da foto, em luto fechado, assume os encargos da família, até quando ela, envelhecida, morre também, deixando numerosa prole.
Se o digno leitor não entendeu esta singela alegoria, não se preocupe. Eu também não entendi por que me empolguei em trazê-la ao meu dileto público. Mas fica bem claro, tanto para o leitor amigo como para mim próprio: a magia da vida nos surpreende inexplicavelmente, a ponto de nos burilar a mente diante de uma simples foto clicada a setenta e oito anos passados, na qual pessoas sorridentes comemoram um momento prazeroso da vida, e uma jovem mulher sorri para a posteridade, a mostrar ao mundo sua beleza feminil.
Setenta e oito anos passados! O tempo não dissipou os sorrisos festivos captados naquela passagem efêmera do tempo. Na curiosidade de desvendar o paradeiro daquelas pessoas submissas à fatalidade funérea da vida – como todos nós –, indago: como estarão neste ano de 2018? Teriam já ultrapassado a dimensão terrena? Os gemidos nostálgicos de mil bandoneóns respondem misteriosos pelas calles de Buenos Ayres, a eterna “Paris Sul-Americana”. Admiravelmente, aquele grupo inerte de pessoas numa foto de 1940 deixou marcada à posteridade indelével recordação da famosa típica de Carlos di Sarli, o admirável caolho “Senhor do Tango”, que fazia o mundo chorar na magia do bandoneón arrabalero.