Muito me alegra escrever sobre Campo Grande, a cidade onde nasci, moro e trabalho com muito orgulho. Eu comecei a conhecer a Cidade Morena na década de 1940, quando morava na Vila Carvalho, bucólico e tradicional bairro da cidade.
No início da década de 1950, minha família se mudou para uma vila de casas nas proximidades do Mercado Municipal, na Rua Sete de Setembro, onde eu podia tomar banho nas águas cristalinas dos córregos Prosa e Segredo, participar dos famosos Footings, aos domingos, na Rua 14 de Julho, assistir a filmes nos cines Trianon, Santa Helena e Rialto, curti as matinês de domingo do Rádio Clube, bem como ouvir os eternos boleros tocados na fonte luminosa da Praça Ary Coelho.
O fato de morar e estudar no centro me colocava, ainda adolescente, em contato com a vida concreta na cidade, porque tudo acontecia no seu quadrilátero central, que hoje está sendo reurbanizado com um empréstimo de 56 milhões de dólares que consegui para a Prefeitura de Campo Grande com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), iniciativa da qual me orgulho muito, porque mudará a nossa cidade para melhor.
Guardo muitas lembranças da Campo Grande de antigamente. Já escrevi ou falei sobre várias delas em palestras, artigos em jornais e revistas e em outros meios de comunicação. Hoje, especialmente, quando a cidade completa 119 anos de emancipação política, lembro-me de alguns tipos da cidade que, por razões variadas, inclusive por apresentarem transtorno psiquiátrico, vagavam pelas ruas centrais da cidade.
Conheci muito de perto três personagens da década de 1950. Aquele com quem tive mais contato foi Josete, uma figura muito simpática. Os seus dedos eram cheios de grandes anéis. Tudo nele era espalhafatoso. Havia uma conversa de que ele ficou naquela condição porque foi abandonado por sua noiva no altar, na hora do casamento. Josete ficava sempre nas ruas Sete e Quinze. Era calmo. Só que, quando ficava bravo, apenas o doutor Wilson Barbosa Martins, seu amigo, o acalmava.
Também conheci Maria Bolacha. Era uma mulher baixa e relativamente obesa. Andava sempre com um pano na cabeça e um chicote na mão. Era brava e não media as palavras quando algum garoto mais peralta a chamava de Maria Bolacha. Morava na Mata do Jacinto, só que era possível encontrá-la em qualquer lugar em Campo Grande. Muitas vezes a vi nas imediações do quartel do Exército. Diziam que ela tinha uma admiração danada por soldado. Meu confrade Ulisses Serra Neto escreveu um belo texto sobre ela.
Outro que também conheci foi o Pompilho. Esse era diferente porque não tinha essa história de correr atrás de criança ou mulher, como é mais comum nas pessoas com algum desequilíbrio mental quando são xingadas. Ele tinha familiares nas proximidades da Rua Barão de Melgaço, mas gostava mesmo era de viver nas ruas centrais de Campo Grande, principalmente na Rua 14 de julho, onde costumava ficar defronte ao Bar Cinelândia. Gostava de beber uns tragos, porém não importunava ninguém. Era baixinho e sempre estava vestido em um surrado paletó.
Em nome de Josino, Maria Bolacha e Pompilho, com muito carinho e profundo respeito por essas figuras maravilhosas da minha adolescência, parabenizo os homens e as mulheres que escolheram a Cidade Morena para viver e trabalhar.