Artigos e Opinião

ARTIGO

Gilberto Verardo: "O enigma do feminicídio"

Psicólogo

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Não é tão difícil teorizar sobre a violência contra a mulher. Talvez o mais difícil seja encontrar meios de inibir tal comportamento.

A violência mais “gratuita” sempre é direcionada ou expressa para onde o poder de resposta é menor ou inexistente. A própria lei penal é mais severa quando menor for a possibilidade de defesa da vítima.

Simbolicamente, em tempos não tão distantes, chamava-se de sexo frágil a mulher. A razão disso deve ser pré-histórica. Mesmo assim, no Olimpo grego tinha papéis masculinos e femininos quase paritários, onde se destacavam Hera e Atenas, Zeus e seu filho Ares. Às deusas femininas eram destinadas papéis relacionados à beleza, à intuição e ao amor. Aos deuses masculinos, a força, o poder e a guerra. Tais papéis colocavam o masculino e o feminino em dimensões opostas. Uma relacionada a instintos mais primitivos. Outra a sentimentos mais fraternais. 

Ao longo da história humana, parece que o rude e o primitivo foram parâmetro de civilidade não alcançada. Porém, a negação disso estava sempre sob a responsabilidade do ente feminino, assumindo papéis de equilíbrio entre o primitivo e o civilizado. Já no século XXI, apesar de toda uma engenharia teoria e conceitual, a inibição de comportamentos primitivos, como o feminicídio, por exemplo, parece seguir um ciclo. Quando a instabilidade do meio aumenta, a agressão e ou a violência manifesta-se primeiro no ente masculino. Teóricos do corpo e da mente têm suas explicações preferidas, mas ainda não deram conta de equacionar esta desagradável questão que teima em algemar a natureza humana a de seus congêneres do reino animal. Afinal, humano é o que sente e pensa enquanto outras espécies agem apenas em nome da sobrevivência? Se for essa a diferença entre um e outro, parece-nos que, para refrear comportamentos agressivos e violentos contra a mulher, a chave da algema é construir pensamentos diversos do simples agir instintivo. Parece simplório, mas não é. É bem do tipo Terapia de Grupo mesmo. Trancafiar ou qualquer punição segregadora pode ser bom num primeiro momento para tirar o individuo da situação de estímulo da agressão, no caso a mulher, porém, tais medidas, sem a devida Terapia de Grupo, alimentam ainda mais um ressentimento que nasceu (pode até ter adormecido temporariamente) no espelho da relação masculina e feminina, pois é nela que se acentua ou se iguala a dominação ou a gentileza de um para o outro.

Simbolicamente, em tempos mais recentes, substituir objetos de consumo imediato por objetos de caráter, como afeição e gentileza, terminou por banalizar o uso do antídoto da violência – o afeto solidário. O agressor da mulher é um ser incapaz de se satisfazer com o afeto que tem. Parece sempre faltar. Daí que, quando perde o que conseguiu, quer destruir a semente de um sentimento que na infância não teve o devido exemplo dentro de casa.

Nos tempos remotos de toda alma de um agressor de mulher camufla-se uma enorme carência afetiva nunca admitida, que evolui e toma a forma de um telhado de vidro que se quebra diante de uma rejeição.

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