O Brasil assistiu entristecido às chamas consumirem o mais antigo museu do País, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. O fogo consumiu, pelo menos, 90% do acervo que ficava no prédio de mais de 200 anos, que está interditado pela Defesa Civil, depois do incêndio registrado na noite de domingo (2). As causas do incêndio ainda serão investigadas pela polícia. Porém, antes mesmo de sair o resultado, é possível afirmar que esta era uma tragédia anunciada.
Há muito tempo, a estrutura precária do lugar vinha sendo alvo de denúncias. O recurso era justamente para a elaboração de um plano de combate a incêndio. A expectativa era de que a primeira parcela da verba, R$ 21,7 milhões, fosse liberada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em outubro. Chegou tarde. Hoje, o museu tenta contabilizar o pouco que escapou das chamas. O resto vai ficar somente na memória daqueles que visitaram o local.
O incêndio do Museu Nacional mostra o descaso com que o poder público em geral trata sua história e, por aqui, não é muito diferente. Como mostrou reportagem do Correio do Estado publicada na edição de terça-feira (4), levantamento do Corpo de Bombeiros apontou que nenhum dos 64 museus de Mato Grosso do Sul conta com alvará e plano de combate a incêndio.
Administradas por universidade, fundações e iniciativa privada, essas instituições guardam a memória do nosso povo e, mesmo assim, estão em perigo. Ao ver os alvarás dos bombeiros – documentos que atestam a segurança do prédio – como mero papel, o poder público coloca em risco a vida e a história da população. Não precisa ser especialista para ver o descaso.
Em Campo Grande, o desgaste da estrutura física é visível, tanto que um de seus patrimônios históricos, a Casa do Artesão, chegou a ter a sua fachada interditada pelos bombeiros e pela Defesa Civil, há três anos, mas aparentemente permanece com problemas de infiltração – ainda há marcas de água nas paredes e, no piso, fios expostos e uma tomada desprotegida.
Risco para a história, risco para a população. O descaso vai além. Em tal grau que, como já mostrado em reportagens anteriores deste jornal, há no Estado até mesmo hospital operando sem um plano de combate a incêndio.
Quanto do passado ainda terá de ser consumido pelas chamas para que haja um despertar para a importância de estar preparado para casos de urgência e emergência? No Museu Nacional, além das irregularidades internas, o fator externo também não ajudou.
Dois hidrantes próximos ao museu não funcionaram, dificultando ainda mais a atuação dos bombeiros. Neste caso, por sorte, não houve feridos. Mas é impossível falar de incêndio sem lembrar da tragédia da Boate Kiss, que resultou na morte de 242 jovens em Santa Maria, Rio Grande do Sul.
A fiscalização dos equipamentos de segurança e também da estrutura oferecida para locais em que há grande circulação de pessoas ou onde estão riquezas como parte do acervo histórico precisa ser frequente e, principalmente, rigorosa. Não adianta somente falar que está irregular. É preciso tomar providências para que o local se regularize.