Hoje vi uma camisa da seleção brasileira na rua e me veio à mente cenas das Copas que vivi. Nesta última, a de 2018, por vários dias deparei, nas ruas das cidades, com varais contendo camisetas e bandeiras da seleção brasileira sendo vendidas nos dias da Copa do Mundo. Isso ocorreu até o dia em que o Brasil perdeu para a Bélgica.
As imagens acionaram minha memória, fazendo-me lembrar da Copa de 1982. Sem nostalgias e lamentos, posso afirmar que há uma diferença nítida entre a Copa de 1982 e a Copa de 2018. Lá, éramos, de fato, a pátria de chuteiras.
Fui uma criança que, desde pequena, gostava de jogar bola. Com o meu pai, seguia um time de futebol de várzea. Era uma equipe de um bairro rural, na região de Jales, que tinha os sítios bastante povoados. Ali se plantava café, milho, arroz, feijão, mandioca e muitas frutas. Os sítios eram de pequeno porte, mas abrigavam várias famílias para trabalhar, especialmente, no cultivo de café.
Vi meu pai passar de jogador do time de veteranos para técnico. Durante a semana, havia dias em que, depois do trabalho, vários moradores do bairro se reuniam para bater uma bolinha no campo. Já aos sábados, os moradores que gostavam de futebol faziam um rachão, que servia de treino para, no domingo, jogarem contra times de outros bairros e cidades.
Em 1982, nosso Brasil tinha uma seleção que encantava o mundo. E que seleção: Waldir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho, Toninho Cerezzo, Júnior, Paulo Isidoro, Sócrates, Serginho Chulapa, Zico e Éder. O técnico era o saudoso Telê Santana.
A contar pelos varais que vi, posso garantir que hoje há facilidades no acesso ao uniforme da seleção, mesmo que isso passe pela fabricação de produtos populares ou pela popularização na comercialização de uniformes similares pelo processo “made in China”, a preços mais em conta. Como criança que, na Copa de 1982, gostava de futebol, não tinha essa facilidade, mas desejava o uniforme!
Então, envolvidos pelo ar da Copa, eu e mais alguns colegas resolvemos criar nosso próprio uniforme da seleção brasileira de futebol. Na verdade, era um uniforme caseiro. A primeira providência era decidir como fazer isso. Decidiu-se, em grupo, comprar uma camiseta Hering (na época, a marca mais comum e então acessível) amarela; tintas para tecido nas cores azul, branca e verde e pincéis (grosso e fino) para fazer o símbolo da CBF e o número nas costas. Naquela edição da Copa, o nome do jogador não era escrito nas costas; somente o número.
Nesse grupo, havia um amigo mais velho que era bom no desenho à mão livre e que ficou encarregado de fazer o molde e passar com o papel carbono para todas as camisetas da turma. Como o Zico era o jogador mais admirado pela molecada, todos quiseram ser o camisa 10. O mais impressionante era que todos sabiam de boa parte da vida de Zico, conhecido carinhosamente por Galinho de Quintino. Detalhe: não existia internet, o que acentuava a admiração verdadeira que tínhamos por ele. Ah... e nem fazia tantas propagandas ou estava na mídia como é o caso de Neymar Jr.
Naquela Copa, o Brasil vinha jogando e encantando o mundo, até que, no quinto jogo, perdeu para a Itália por 3 x 2. Nós, com nossas camisetas pintadas à mão, sonhávamos ver o Brasil tetracampeão e com gols de Zico, mas foi a Itália a campeã mundial.
O sonho não se concretizou (assim como em 2018), porém o espírito de equipe e a amizade entraram em campo de mãos dadas com a criatividade. E hoje, o que me vem à memória é um pedacinho da música da Copa de 1982: “Voa, canarinho, voa/Mostra pra esse povo que és um rei/Voa, canarinho, voa/Mostra na Espanha o que já sei”. E viva o Brasil!