Ideologia é um conceito plural: fala-se em ideologia econômica, social, de gênero, religiosa, política, etc. Apesar disso, as ideologias guardam duas características em comum: 1) todas referem-se a sistemas de crenças e valores relacionados a regras de convívio social, e 2) todas estão fundamentadas em interesses grupais ou individuais associados a relações de posição, status e/ou poder.
Ideologia e política são almas gêmeas. Ideologia aponta, explica e justifica os meios e os fins das ações políticas, justifica o politicamente correto, tenta combater o incorreto e define as conexões entre a política e as outras esferas da atividade social. Ela é necessária e inevitável para o bom desempenho da atividade política. Ideologia torna-se problema em três casos: 1) quando levada ao extremismo dogmático pela polarização de pontos de vista divergentes, 2) quando inexistente no pensamento do agente político, ou 3) quando se sobrepõe às regras do convívio social. O extremismo dogmático resulta em miopia ideológica que tenta justificar os meios em nome dos fins. A falta de ideologia nos agentes políticos abre espaço para que interesses e práticas espúrias de grupos ou indivíduos em posição de poder sobreponham-se ao interesse comum, enquanto a predominância da ideologia política sobre as regras do convívio social subordina comunidades a interesses totalitários.
Quanto mais extremado por um lado, ou quanto menor o comprometimento ideológico por outro, tanto mais emoção e menos razão estão envolvidas em questões de autoridade e legitimidade, atalho para a emergência de líderes messiânico-populistas, para a idolatria, ou para a anarquia. Nesses casos, ideologias distorcem valores e crenças para legitimar e defender interesses grupais, transformando grupos de pessoas em massas de manobra, ao ponto de algumas adotarem e defenderem posições políticas que muitas vezes conflitam com suas crenças e valores.
Instituições e sistemas educacionais possuem papel importante na construção e na disseminação de ideologias. Em razão disso, tornam-se alvos constantes de grupos ou governos interessados em promover a hegemonia ideológica pela captura das mentes de indivíduos em formação ou fragilizados pelo sentimento de marginalização. Essas mesmas instituições e sistemas podem representar poderosas frentes de resistência ao desenvolvimento de conflitos com vieses ideológicos. De uma forma ou de outra, ideologia é parte da educação. Assim nos mostra a história, inclusive a história brasileira recente.
Não creio em educação ideologicamente neutra, puramente objetiva; que me desculpem Durkheim e os positivistas. Não creio, tampouco, na distorção cultural apregoada por Gramsci (pomposamente chamada revolução cultural) como forma de buscar a hegemonia ideológica e impor uma forma particular de estrutura política e de governo. Que me desculpem os gramscistas. Reconheço, entretanto, que a educação é essencialmente ideológica. O que está em jogo são os limites a serem observados para que os sistemas educacionais não se tornem instrumentos a serviço da homogeneização ideológica, de agremiações políticas, de governantes, ou ainda em espaços de “lutas” com o objetivo de promover a divisão social ou a sedimentação de falsas dicotomias que dão a falsa impressão de só poder serem superadas pelo confronto social. Pluralidade ideológica deve ser a norma na educação, em respeito ao desenvolvimento de um pensamento crítico genuíno e autônomo nos indivíduos. Sem capacidade crítica para comparar, analisar e avaliar livremente diferentes (e muitas vezes conflitantes) opções ideológicas e fazer suas próprias escolhas, não existe democracia e justiça social possíveis. Desenvolver essa capacidade depende, em parte, da nossa vontade e competência como profissionais da educação.