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Fausto Matto Grosso: "Nós contra eles"

Fausto Matto Grosso: "Nós contra eles"

Aline Oliveira

20/09/2018 - 01h00
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O Brasil, hoje, é um campo de guerra. Cada um procurando um inimigo para esmagar. Vivemos tempos de ódio e medo. Cabe aqui a advertência de Mahatma Gandhi: olho por olho, e o mundo acabará cego.
É muito comum pessoas que, na busca de sua afirmação individual, expressam sua diferença por contraposição a um “inimigo”.

O inimigo dá sentido para sua vida. O mesmo ocorre com organizações políticas. Nesse sentido é a luta contra um inimigo, real ou imaginário, que as fazem existir. Mais grave ainda quando essa divisão não é feita tendo por base a ideologia, mas, sim, o oportunismo eleitoral. 

Assim, surge a prática de afrontar divergentes e antagonistas, de difamar e espalhar notícias inverídicas (fake news), de agitar e chantagear, de insuflar os ânimos para agredir adversários e transformá-los em inimigos. Essas são práticas que negam a democracia e bloqueiam a vida civilizada. 

O conceito de inimigo não serve para a política. Inimigo não é feito para falarmos com ele, e sim feito para a guerra. 

Não servem aqui, portanto, os ensinamentos do general chinês Sun Tzu, na “Arte da Guerra”, tampouco os de Von Clausewitz, que associam guerra e política, orientando que a política deve ser a preparação para a guerra.

Em uma sociedade democrática, que queremos ser, a política deve ser a prática de escutar o outro, o diferente e o divergente. É preciso despir-nos de nós próprios, de largarmos a obsessão com a nossa identidade. Na realidade, a solução de um problema dificilmente virá apenas da nossa verdade, mas, sim, uma nova síntese que também incorpora as verdades do adversário.

Política é o instrumento civilizado de nos relacionarmos com o outro. Isso não significa despirmo-nos da nossa identidade, mas, sim, exploramos as possibilidades de avançar, mesmo limitadamente, onde possa existir espaço para algum consenso que permita avançar a nossa causa. Fora disso é a guerra.

Nos últimos anos, surgiu entre nós um partido que se afirmou com essa lógica. Todos conhecem a história e os responsáveis pelo “nós contra eles”. Nós, que representamos o povo, “eles”, os inimigos do povo. A ideia de bons contra maus, de santos versus golpistas é o caminho mais curto para a quebra do pacto democrático que nos sustenta, ou deveria.

Aqui entre nós, a arrogância salvacionista do projeto de 20 anos de poder era uma clara demonstração de falta de compromisso com a democracia e com a alternância do poder. Do alto da sua prepotência, chegou a ameaçar “extirpar o DEM da política brasileira”, demonstrando seu desprezo pelo respeito ao pluralismo.
Em algum momento, em alguma curva da estrada, o “nós contra eles” termina por se tornar o “eles” contra nós todos.

Explode agora o conservadorismo e o autoritarismo. “Eles” saíram do armário e hegemonizaram uma multidão de inocentes úteis, de incautos e simplórios despolitizados, cheios de si e dispostos a construir uma nova hegemonia. Trata-se de uma regressão histórica.

Em tempos recentes, os sinais de perigo já se materializam. Em 2013, a aparição dos Black blocs, recentemente os tiros no ônibus de Lula em uma estrada do Rio Grande do Sul, também no acampamento pró-Lula em Curitiba e o deplorável atentado contra Bolsonaro. 

Que esses graves episódios façam os brasileiros repensar a raiva, essa péssima conselheira, e apostar na tolerância democrática. Essa postura requer que todos encarcerem os seus demônios e, mais uma vez, aprendam com a sabedoria popular, de que é impossível existir só pessoas boas de um lado e só más do outro.

Também aprendamos, mais uma vez, com Mahatma Gandhi, que o “fraco jamais perdoa, o perdão é uma das características do forte”.

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