Depois de tantas discussões em família, seja no almoço de domingo, seja nos grupos de WhatsApp, dos longos textos nas redes sociais ou até mesmo de manifestações – contra ou a favor de determinado candidato –, chegou a vez de ir às urnas e digitar nela os números que representam suas convicções políticas. Em todo o Brasil, são mais de 147 milhões de eleitores aptos a votar, 1,7 milhão deles concentrados em Mato Grosso do Sul.
A diferença neste ano é o grau de polarização dos eleitores. São milhares de pessoas basicamente divididas em dois grupos. Esse processo de divisão teve início logo após as últimas eleições para presidente no País e só ganhou força de lá para cá, muitas vezes alimentado mais por ódio do que por convicções. A raiva por um determinado nome ou partido faz o eleitor votar em candidaturas opostas. Em alguns casos, o que menos importa são as ideias ou os planos de governo. A meta – arriscada – desse eleitor é não deixar o inimigo vencer.
A polarização tem seu lado positivo. Há muito tempo o povo brasileiro não se via discutindo política como hoje. O avanço tecnológico, com o surgimento da internet e das redes sociais, ajudou nesse processo, mas a forma com que nos levou até a situação atual é triste, e o que surgiu depois disso preocupa. Essa polarização cresceu sobre o encolhimento da credibilidade da classe política entre seus eleitores. Tantos casos de corrupção, desvio de dinheiro e tantas outras polêmicas resultaram em animosidade, num primeiro momento.
Não foi em vão o aumento significativo dos votos nulos e em branco no Brasil nas últimas eleições presidenciais. Agora veio a raiva. Eleições são um momento de discutir com o colega, com o desconhecido e defender suas ideias publicamente. Isso faz parte do processo eleitoral. O que não se pode é permitir que essa raiva gere uma espécie de cegueira política ou até atos de violência (verbal ou física).
É desta cegueira política que se alimentam as fake news, em bom português, notícias falsas, que tomaram conta do cenário político. As redes sociais se transformaram no principal meio de propagação dessas informações fictícias, que são reproduzidas aleatoriamente. O ódio não deixa que se veja a verdade, e isso vale para os dois lados. Por isso, é importante que hoje o eleitor vá às urnas mais por convicção do que por ódio.
E o mais importante será manter o respeito ao discurso alheio em caso de segundo turno. Nesses momentos em que a polarização é grande, é essencial ressaltar que o direito de um termina onde o do outro começa. Manifestar publicamente o seu voto, fazer campanha para o seu candidato, desde que obedeça às regras eleitorais, ir às ruas em protesto e até fazer textão nas redes sociais são ações que fazem parte do processo democrático. O sinal de alerta é para os excessos.
A preocupação é de que as discussões deixem o campo virtual ou dos discursos e tornem-se violência real, gratuita. Por isso, também cabe aos candidatos uma força-tarefa para apaziguar essa situação em caso de segundo turno e também após as eleições. A maior briga tem de ser nas urnas.