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Gilson Cavalcanti Ricci: "O submarino alemão"

Advogado

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Desde sua fundação, Campo Grande sempre foi progressista, razão pela qual aproximava grande número de forasteiros, que chegavam aqui atraídos pelas boas oportunidades de trabalho e fortuna, como já relatei em outras publicações. Por seu notável crescimento econômico, a cidade despontava como a verdadeira capital de Mato Grosso, constituindo-se no maior fomentador da economia estadual. Por esta razão, canalizava grandiosa arrecadação fiscal para os cofres do governo cuiabano. Todavia, Cuiabá não se preocupava em dinamizar a infraestrutura necessária ao incremento da economia no sul do Estado, desviando as verbas arrecadadas nesta região para outros projetos no norte mato-grossense.

Um dos setores mais afetados pelo descaso do governo estadual era o da energia elétrica, que se tornava cada vez mais precário, em proporção inversa a do desenvolvimento econômico de Campo Grande. Nessa espiral de incertezas, sofriam todos os que necessitassem de energia elétrica para trabalhar e estudar, mormente os alunos dos cursos noturnos, que ficavam vários dias sem aula, e assim seriamente prejudicados nos estudos. Algumas escolas mantinham iluminação precária por meio de lampiões petromax ou gerador de energia a óleo diesel. Como as autoridades governamentais não davam sinal de solução ao problema, os alunos das escolas afetadas resolveram sair em passeatas pelas ruas do centro de Campo Grande, com cartazes e velas acesas, gritando slogans contra o governo cuiabano. Nesse contexto, estavam em maioria os alunos dos cursos noturnos dos colégios Osvaldo Cruz e Dom Bosco, quando se envolveram apaixonadamente na luta pela rápida solução do problema. 

Nas noites de aula, saía a multidão de estudantes com velas acesas pelas ruas centrais, até quando alguns mais afoitos resolveram fazer uma quebradeira nos prédios de arrecadação de contas de luz. A polícia entrou em ação violentamente, prendendo vários alunos, trancafiando-os no “Paraíso dos Inocentes”, onde eram jogados na companhia de sórdidos criminosos. A situação piorou quando elementos estranhos ao meio estudantil passaram a apoiar o movimento, com a prática de atos de vandalismo.

Não foi muito longe o movimento justo dos alunos, pois se encontraram ameaçados de prisão e expulsão das escolas onde estudavam. Entretanto, não foi em vão a reivindicação deles, pois o governo de Cuiabá resolveu adquirir um motor a diesel de uma das indústrias açucareiras de Piracicaba, o qual foi montado em tempo recorde no centro da cidade. Foi uma festa! No primeiro dia de funcionamento, Campo Grande se iluminou feericamente como a Cidade Luz!

Não tardou, surgiram boatos sobre a compra do tal motor, adquirido na surdina pelo governo cuiabano. Correu a notícia de que o monstro, com capacidade para iluminar uma cidade de cinquenta mil habitantes, fora retirado de um submarino alemão aprisionado pelos americanos na 2ª Guerra Mundial e doado graciosamente ao governo brasileiro, como retribuição ao esforço de guerra.

Ainda, segundo a notícia, numa negociata misteriosa, o governo brasileiro doou a relíquia a uma poderosa indústria açucareira paulista e esta, por sua vez, a vendeu lucrativamente ao governo mato-grossense, o qual repassou a Campo Grande o “submarino alemão”, como o povo campo-grandense ironicamente apelidou a peça. Apesar disto, o tal submarino resolveu paliativamente o problema de energia elétrica na cidade, proporcionando aulas regulares aos alunos do período noturno. 

Esses episódios foram responsáveis pela constituição da União Campo-Grandense dos Estudantes (UCE), que se iniciou com uma diretoria improvisada, tendo na presidência o aluno e exímio orador Orcidney Bissoli, que se tornou médico ginecologista de renome. Bissoli foi preso no Paraíso dos Inocentes em várias ocasiões das passeatas. A normalização das aulas, graças ao “submarino alemão”, levou a UCE à defesa intransigente da classe estudantil.

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