Se antes, a ansiedade foi admitida pela ciência como a sensação que, mal administrada, evoluía para distúrbios orgânicos cardiopaticos, vasculares, gastrointestinais e AVCs, hoje, a sensação de insegurança está na base psicológica de alguns distúrbios sociais, entre eles, o aumento da violência, da agressividade, da desconfiança e do autoisolamento. Eles são expressão do estado de insegurança, que fere de morte o seu melhor antídoto – a sensação de pertencimento. Aquela que agrega as pessoas em um bem comum, diminuindo conflitos gratuitos e fortalecendo laços solidários. Parece coisa de romance, mas não é. É coisa de maturidade social. Tais distúrbios, se não admitidos pelos médicos, são encarnados pela população.
Como dizia Zygmunt Bauman (2007) “este modelo social nos induz, discretamente, que devemos buscar soluções individuais para problemas produzidos socialmente e sofridos coletivamente”.
Esta campanha eleitoral, em que é disputado o poder de comandar a máquina que atende demandas da população, revela o quanto nosso formato de poder ainda procura a porta da maturidade. Candidatos e assessoria lançam mão de instrumentos pouco convencionais e oposto ao que exige o cargo pleiteado. Os mecanismos emocionais substituem o conteúdo programático, e a população é induzida a participar deste embate emocional, querendo apenas a justa aplicação de seus tributos, que tem na campanha eleitoral a forma civilizada de participar do poder, escolhendo um dignitário que possa amenizar a insegurança de seus dias. A emoção vai sempre mensurar a intensidade do desejo, como também é um mecanismo de alerta de intensidade.
Não se trata de mais uma campanha política para pessoas ou grupos controlarem o poder de comandar a vida de milhões, mas sim, de criar expectativa de que auxiliem na minimização desta sensação paranoica e pós-moderna – a sensação de insegurança social, como se não bastassem os receios pessoais. Campanhas que usam mais emoção que a razoabilidade das propostas de governo, a sensação de insegurança social pode tomar dois caminhos: recolher-se, ainda mais, ao individualismo ou provocar um desapego a qualquer coisa relacionada ao bem comum. O eleitor, neste tipo de campanha, é induzido, sem segurança, a acreditar que apenas o vencedor do pleito pode ser bom e virtuoso, mesmo a vitória sendo nutrida pela emoção destrutiva, parecendo aquela que nutre o feminicídio.
O eleitor não merece a opção de escolher um entre dois virtuosos e bons? Se a campanha espelha o nível de amadurecimento do nosso modelo político, nunca é demais lembrar que o conceito de maturidade é saber, conscientemente, administrar o equilíbrio de forças de desejos na fronteira do pessoal com o coletivo. Às vezes, tenho a impressão de que certos candidatos parecem entidades com a prerrogativa de revelar seus milagres solitários e antecipados que duram apenas durante a campanha. Depois é preciso substituir os milagres pelo poder do diálogo inteligente e conciliador.