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OPINIÃO

Luiz Fernando Mirault Pinto: "Castigo iminente"

Físico e Administrador

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Em uma ocasião ao acompanhar uma tarefa escolar de minha filha comentei que os trabalhos de casa nada mais eram do que a fixação da aula dada, mas que ao não fazê-los poderia levar o aluno a ser repreendido disciplinarmente pelas regras da escola.  Em seguida ela aduziu que não seria adequada qualquer punição uma vez que os alunos sabiam a priori que as tarefas eram para serem feitas, e que o castigo viria no momento da prova em que eles não saberiam responder as questões. Uma punição qualquer a mais seria desnecessária e injusta. 

Naquele momento entendi que ela se referia ao castigo imanente, aquele que é inerente a algo ou alguém, que se encerra em si mesmo, ou seja, devido propositadamente a uma má escolha ou ação quando antecipadamente sabemos que vamos errar e mesmo assim insistimos apesar dos sinais externos contrários a nossa decisão. 

Estranhamente para mim tal concepção de responsabilização partia de uma criança, e que como tal nunca se considera vítima de injustiças e aceita regras provenientes de pessoas alheias ao seu convívio por acreditarem que elas têm comportamentos exemplares.

Um dia, alguns anos antes, eu havia resolvido após inúmeras confabulações com essa minha filha, fazer sua transferência escolar, visto que o pequeno colégio que ela frequentava já havia cumprido sua missão, e que um estabelecimento maior, tradicional, com experiência educacional comprovada iria patrocinar uma socialização mais ampla, onde conviviam classes sociais dispares em um mesmo ambiente como a filha do patrão com a do motorista. Na verdade se tratava de uma transição dramática e assustadora das próprias mudanças com as incertezas e o desconhecido desde as salas enormes, pé direito duplo, portas e janelas enormes, as cores esmaecidas do piso de azulejos hidráulicos antigos, até as “tias” transformadas em professoras, as filas serpenteando os corredores, e o pátio freneticamente aos gritos. 

Combinamos que se caso não gostasse, ela voltaria à situação anterior após o próximo período de matriculas. Passaram-se seis meses quando lhe ofereci a ideia do retorno ao ambiente anterior e me surpreendi com sua recusa justificada.

Questionei do porque daquela desistência uma vez que ela passara todo esse tempo a reclamar de inúmeras ocorrências negativas. “Porque devemos separar e escolher as coisas boas dentre as ruins, e existem muitas que são boas!”. Para meu espanto como resposta recebi uma aula sobre a tenacidade ou obstinação principalmente vindo de uma criança de apenas cinco anos.

Pois bem, essas duas passagens ilustram a situação atual que nos encontramos. Uma que se refere à disputa entre candidatos que defendem posições antagônicas, tidas pelos respectivos correligionários como adequadas, ou inadequadas quando em relação aos grupos adversários correspondentes. 

Como uma lição de vida, se queremos ser felizes e seguir em frente devemos dentre todas as coisas ruins que nos são oferecidas, escolher apenas as boas, e que a escolha deve ser pensada, pois uma vez decidido, o castigo imanente, que perdura, é contínuo, e persistente, nos atormentara por um bom tempo e será o próprio resultado dessa má opção.

Na maioria das vezes escolhemos o caminho mais difícil ou aquilo que nos faz mal quando não temos como comparar. Muitos elegem “um tiro no escuro”, o “pagar para ver”, justificando parvamente “será um aprendizado”, ou estultamente “pior que está não pode ficar”. A isso é o que chamamos de “laisser faire”, pouco se lixando para os acontecimentos futuros, o que não são medidas apropriadas e responsáveis com a democracia e o bem estar da sociedade em jogo.

A escolha nestes termos nos levará fatalmente ao castigo imanente, onde responderemos por nossa falta de perseverança na busca de uma vida melhor.

Existem momentos na vida que não podemos fugir muito menos apostar, pois se vamos errar ou aprender com uma opção “desacertadamente” esta influirá no tempo do arrependimento ou da amargura.

O coração sempre nos aconselhará a pesar as coisas boas em relação às ruins, no bem-estar, na atenção ao coletivo, na paz, na solidariedade, na felicidade e na democracia enquanto a razão nos levará a raciocinar o que é bom para nossa vida e a sociedade  evitando o castigo imanente.

 

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