Artigos e Opinião

CRÔNICA

Sylvia cesco: os peixes de Pedro sangram denúncias

Sylvia cesco é professora, cronista e poeta

Redação

22/11/2018 - 09h47
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Dias atrás estive na abertura da exposição do artista plástico Pedro Guilherme, gente muito nossa. E não houvera de ser? Pois foi em Coxim que esse moço, que vem sendo considerado um dos pintores mais expressivos de Mato Grosso do Sul, surgiu com a força das cores para pescar os mistérios que habitam o Taquari. 

Ah, esse rio, esse rio... ficou represado nas minhas lembranças por toda a eternidade. E quando me deparei com  os peixes do Pedro, perfeitamente pincelados em tons de terra e de seus donos, os indígenas, essas recordações desaguaram em minha memória feito uma piracema às avessas: não subindo, mas descendo aos borbotões. 

Eu era ainda uma menina e acompanhava meu pai em suas pescarias porque meu irmão mais novo, entretido com sua mamadeira feita com uma   antiga garrafa de guaraná Tupy, não desgrudava da barra da saia de nossa mãe. Numa dessas vezes, choveu demais, demais. O céu desaguou por inteiro em nossas cabeças. Quando só restou a terra molhada, lá estávamos nós dois, às margens do Taquari, tentando puxar um grande, um enorme, um imenso e hipotético peixe. 

Foram minutos de perfeita sintonia entre pai e filha, e suas mãos guiavam as minhas com firmeza. Meu coração batia acelerado entre a vontade de conhecer aquela heróica criatura que quase nos arrastava para dentro de seus molhados recantos e o desejo secreto de que ela escapasse do cruel e pontiagudo anzol que por certo estava cravado na sua boca, provocando-lhe uma dor que também era a minha, por mais que meu pai me dissesse que aquela região, nos peixes, era quase indolor, porque tinha poucas terminações nervosas e era feita de ligamentos e tecidos cartilaginosos. 

Com um misto de alívio e decepção, o esperado e pesado peixe revelou-se tão somente um pedaço de tronco emaranhado em uma teia de gravetos, descendo o rio turvo pela chuva. De quando em vez esta história me vem à tona, como aconteceu diante dos peixes-índios do Pedro Guilherme lá no saguão da Fertel. Mas foi por um breve instante. Logo, meu olhar, minha alma e coração estavam de volta às dolorosas belezuras pintadas por ele, em meio ao alegre vozerio dos que lá se fizeram presentes. 

Eram muitos amigos prestigiando, merecidamente, o pintor, ao som de uma ótima MPB. Nominá-los, penso ser desnecessário. Mais que isso: inadequado, até porque as estrelas da noite eram o Pedro e seus peixes. E foi assim que as meninas dos meus olhos, de pronto, me alertaram que   estávamos todos diante de cenas reveladoras da preocupação social de um  pintor, que denuncia, com sagrado respeito e  de uma só vez, a lenta e atordoada agonia dos  peixes e dos  índios Terena e Kadiwéu, pintando os primeiros com as mesmas tonalidades de cores que os segundos extraem do buriti, do urucum, do açafrão e jenipapo para pintar os seus históricos  grafismos. 

Pedro Guilherme também não se esqueceu da perversa  degradação ambiental e do assoreamento dos nossos rios, hoje feito de águas salgadas de choro e lágrimas, bem diferentes daquelas águas doces que conheci e para onde eu voltei muitas vezes, querendo  sentir o perfume dos vermelhos cajus, acompanhar a procissão da Bandeira do Divino, numa festança que durava dias, ou para entrar na prainha, pisando, inadvertidamente, nos pequenos peixes enquanto ouvia e via  o majestoso espetáculo dos grandes subindo, teimosamente, a grande jornada para a Vida. Era a Piracema, um tempo de reverência,  pelo menos para os índios, que faziam festa para homenagear o fenômeno e agradecer a fartura que estava por vir. 

Ah, Taquari, Taquari... hoje tão mirradinho, assoreado, poluído, depredado, asfixiado por toneladas de terra. Penso que de nada valeram os lamentos e as denúncias de nossos artistas e ambientalistas com o destino daquela estrada líquida, berço acolhedor de bichos e plantas.

Em 1985, a dupla Tangará e Zé Viola já cuidava para chamar a atenção com sua singela canção “Ainda resta a esperança”, vencedora do V Festão promovido pela TV Morena: “Ó Deus sustenta / a esperança que ainda resta / fazei crescer a floresta / pra salvar meu Taquari”... De lá pra cá, quantas tentativas foram feitas sob formas de artigos, poemas, músicas e pinturas? A última é esta de  Pedro Guilherme, cujos peixes  estão aguardando a todos,  subindo e descendo pelas brancas paredes do saguão da Fertel, tentando respirar o minguado oxigênio de um rio moribundo ou escapar das redes e dos anzóis irresponsáveis.

Vale a pena, demais mesmo, dar uma longa e reflexiva olhada nas telas de Pedro Guilherme. Elas estão lá, esperando por todos que amam este nosso Estado onde existe uma linda cidade, a 255 km daqui,   conhecida com três apelidos: Portal Monçoeiro do Pantanal, Terra do Pé de Cedro e Capital do Peixe. Penso, no entanto, que este último está com seus dias contados. 

 

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