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OPINIÃO

Luiz Fernando Mirault Pinto: "Papo cabeça"

Físico e administrador

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A raça humana nos distingue por características individuais determinadas pelos próprios genes acrescidas de outras definidas pelo secular código genético como seleção natural da humanidade o que nos torna uma singularidade. 

Hoje alguns estudos consideram uma teoria revolucionária ao sustentar que as ideias têm vida própria, reproduzem-se geneticamente e que precisam infectar o maior número possível de cérebros para sobreviver. Levando em conta a mesma maneira que os genes buscam suas clonagens a cada geração, as ideias (os memes) competem entre si para dominar o maior número de cérebros como se tudo aquilo que se considera uma escolha individual (música, religião, ideologia), seria o produto de um vírus mental, ou seja, não se tratam de escolhas conscientes, mas de contagio. Esse conceito memético inclui costumes, crenças, teorias ou qualquer representação mental onde os memes se utilizam de recursos cerebrais mínimos para se replicarem e que determinam como reproduções culturais, nossas ações e comportamentos, passados de pessoa a-pessoa, ou pelos meios de difusão como as redes sociais. Seriam os memes como hipótese, os parasitas cerebrais, ilógicos, que alteram nossas atitudes a partir de uma moda, um chamamento, um medo, e a capacidade que só os humanos têm de reproduzir, a imitação.

Outros estudos recentes se referem à possibilidade de interfaces cérebro-a-cérebro que permitem a solução cooperativa de problemas por humanos usando uma “rede social” física de comunicação direta de cérebros interligados a partir de estímulos e assimilação de sinais oriundos de dispositivos externos originados por outro corpo.

Ainda uma nova pesquisa considera que o sistema digestivo humano contém um “segundo cérebro” com meio bilhão de neurônios para controlar uma função extrair energia dos alimentos, e transferir para o corpo onde os “neurônios de baixo” se comunicam com o cérebro influindo no comportamento, nas emoções e no caráter. 

E por fim temos ainda uma pesquisa originaria de uma plataforma que permite por meio de interface cérebro-máquina promover comunicação de pacientes classificados como coma ou estado vegetativo analisando os movimentos remanescentes da atividade cerebral. 

O que se considera uma novidade no campo teórico das pesquisas genéticas e das comunicações intercerebrais, nos permitem metaforicamente dizer que entre nós, nestas eleições tivemos a concretização dessas quatro teorias não conclusivas.

Alijado do processo eleitoral após ter seu registro impugnado o ex-presidente que com a certeza que ganharia o pleito na largada, isolado, com uma comunicação seletiva e a proibição de aparição junto aos seus eleitores, estrategicamente articulado, consegue fazer uma transferência inédita pela escassez de tempo de votos para o seu substituto, que numa empreitada inicial passa de 4% de aceitação para 17% e finaliza o 1o turno com 29,28% dos votos válidos assustando seu adversário (46,03%). Não é a toa que o ex-presidente afirmava em palanque “O Lula não é o Lula, é uma ideia assumida por milhões de pessoas”, e assim transferiria suas ideias à semelhança da pesquisa memética.

Em oposição dois grupos se uniam em torno de uma escolha. Um grupo induzido ao “comportamento de manada”, ao compartilhamento de chamamento ao acreditar na aceitação das escolhas alheias sem fundamentos e veracidade (fakes) ao definirem um não - candidato. O outro no controle da propaganda adotando uma estratégia envolvendo perfis falsos influenciando correligionários pelas redes sociais psicologicamente eivadas de comentários negativos. Também neste evento ocorreu uma transmissão de escolha cerebral midiática e da ligação dos neurônios intestinais a cuca, respectivamente, sugerido nas pesquisas, resultando em 55,13% contra 44,7%. 

Quanto aos eleitores do branco, nulo ou abstinente em coma político e despreocupados com a democracia a salvação da pátria estaria na plataforma que permite a comunicação entre mortos-vivos, na esperança que seus reflexos sejam reconhecidos apenas como ignorância e não apoio desvairado.

As eleições foram um laboratório perfeito para demonstrar empiricamente que brasileiros estão na vanguarda das ultimas pesquisas e teorias neurocientíficas, sobre cérebros quânticos, mente integrada e estendida, e comportamentos meméticos e miméticos (“Maria vai com as outras”), ou seja, somos cobaias do papo cabeça.

 

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