O trem vindo do Rio de Janeiro chegou a São Paulo ao amanhecer, com muito frio e uma garoa persistente. Desci na Estação do Norte, no Bairro do Braz. Dali, num carro-de-aluguel, fui hospedar-me num hotel do Bairro da Luz. O frio cortante obrigou-me a me proteger do clima gelado da pauliceia num pesado capotão de lã. No dia seguinte, pela manhã, embarquei na Estação da Luz, no trem da Companhia Paulista rumo a Campo Grande, no lendário Mato Grosso, com baldeação em Bauru. Até essa aprazível cidade do interior paulista, o veloz trem elétrico da famosa ferrovia de origem inglesa, ia despertando minha curiosidade durante o fantástico percurso no meio de cafezais verdejantes a se perderem de vista. O início da viagem ocorreu de manhã cedinho na Estação da Luz pontualmente às sete horas, mantendo assim a tradicional “pontualidade britânica”. O trem saiu lentamente daquela “gare”, passando por bairros e subúrbios da grandiosa São Paulo, empolgando-me a grandeza da cidade. Ao sair do último subúrbio, a elegante locomotiva elétrica ganhou maior velocidade, passando a partir dali por cidades e vilarejos do rico interior paulista.
Acomodado no vagão de passageiros, baixei o vidro da janela, protegendo-me do ar gelado penetrante. Assim, podia apreciar as exuberantes paisagens que se descortinavam através da vidraça, como se assistisse a um colossal longa-metragem. Numerosas chaminés, e verdejantes cafezais da região de Campinas, bem como imensos canaviais circundantes de Rio Claro, e cheirosos laranjais de Limeira. Todo esse suntuoso cenário fazia lembrar um imenso tapete verde, atestando ao vivo a pujança econômica do Estado de São Paulo. Nas paradas das estações intermediárias o cheiro delicioso da laranja inebriava o ar, e as vozes dos vendedores pareciam vindas de um bloco carnavalesco: “laranja doce! Ponkam! Laranja baiana!”. Sem dúvida, ali à minha frente um paraíso de beleza impar. Na verdade, o Jardim do Éden em pleno coração do Brasil!
Ao passar por Campinas, vi uma cidade tipicamente interiorana, com suas igrejas e ruas vistas da janela do trem. Após, cidadezinhas desfilavam desordenadamente ante a nobreza de uma região abençoada por Deus ao longo da ferrovia, como bizarros presépios. Ao baldear em Bauru, senti-me em outro mundo, diante da radical diferença entre ambas as ferrovias: a Paulista eletrificada e a Noroeste puxada por locomotiva a lenha – realmente, uma diferença gritante! - Após a baldeação, acomodei-me num vagão de primeira classe da lendária ferrovia. Logo o trem passou a se locomover lentamente, até sair das cercanias de Bauru. A notável riqueza econômica do interior paulista também ali era presente: cidades e vilarejos, imensas lavouras de café, florestas de eucalipto, pastagens com grande quantidade de reses, numerosas cerâmicas, rios, pontes, e uma variada quantidade de estabelecimentos produtivos. De Bauru a Andradina também surgiam imensos cafezais, laranjais entremeados com pastagens e gado esparramado a se perder de vista. Vilarejos e cidadezinhas às margens da ferrovia mostravam-se como esmeradas maquetes perdidas no extenso tapete verde das lavouras, numa perfeita harmonia de cores. Na “Alta Noroeste” o cheiro de laranja invadia os vagões de passageiros, enquanto vendedores entoavam slogans anunciando: “laranja doce! Olha a laranja baiana!”, na mesma cantilena dos vendedores de laranja nas estações da Paulista. Como uma vitrine louçã, o pitoresco burburinho de vozes e perfumes mostrava ao vivo o doce paraíso de um país riquíssimo.
Finalmente, surge imponente o Rio Paraná - majestosa caudal com suas águas azuladas, correndo sob a ponte de ferro entre São Paulo e Mato Grosso. Em poucos minutos surge Três Lagoas, onde saboreio um excelente cardápio de peixes. Trocadas a guarnição e a locomotiva, às vinte horas o trem parte rumo ao sonhado eldorado, chegando à minha amada Campo Grande logo cedinho, deslumbrando-me o casario pitoresco, e a quietude romântica da promissora Cidade Morena.