Outro dia, assisti na TV matéria curiosa que falava sobre a tentativa de endireitar a Torre de Pisa, na Itália, num delicado trabalho de engenharia. “Tantas coisas para endireitar e isso?”, pensei! Qual seria a razão disso? Está lá há três séculos e inclinada, atraindo curiosos de todo o mundo. Talvez porque simbolize aquele velho adágio popular “balança, mas não cai”, que inspira frustrações e inseguranças a não se tornarem definitivos na vida de ninguém. Parece coisa motivacional. Ando com o pé atrás com uso da simbologia, aliás, como ela vem sendo utilizada. Na publicidade e na propaganda, ela é meio subliminar, do tipo insinuante. Já na religiosidade, principalmente nas igrejas de tendência pentecostal, a simbologia exagera e transcende ao seu próprio fim. Acho que está faltando sutileza, em vez de dar o número da conta para não deixar o programa sair do ar. Óleos, rosas, cruzes, água, vestimentas e a velha Bíblia se tornaram instrumento da simbologia para obter “milagres” e sua merecida retribuição – o suado dinheirinho dos inocentes de boa-fé, prometendo cura de tudo, menos do aquecimento global. Não estranhe muito se ouvir dentro de alguns desses templos eletrônicos e dizimáticos que isso está revelado nas escrituras – o apocalipse. Pode até ser, para não parecer ateu, mas penso que se trata de outro tipo de apocalipse – o do caráter humano, que anda tão torto quanto a Torre de Pisa. O sentimento solidário tão difundido pela religiosidade regrediu para sensações de esperança. O bem servir à população, tão decantada nas campanhas políticas, em pouco tempo se transforma em retórica no seu sentido pejorativo, em que o poder e suas variadas sensações acabam tirando o bom senso da pessoa, aliás, muito bem simbolizada na saga do filme “O Senhor dos Anéis”.
Nesse processo de crise e pós-crise, estamos criando uma geração de desesperançados, camuflando sua decepção com comportamentos adoecedores que transparecem mais um protesto existencial do que a procura por uma nova realidade. Motivos não faltam. Jovens dessa geração se norteiam, para formação do seu caráter, em coisas simples, como coerência, franqueza e empatia, pois é como se sentem aceitos para não serem anônimos na família e na sociedade. A autonomia buscada por essa geração contemporânea conta com cem vezes mais informações que a geração passada tinha a seu alcance. Essa autonomia foi alcançada à medida que a religiosidade impositiva perdeu sua preponderância na tutela existencial das pessoas. Assim, a fé antiga perdeu para a desconfiança moderna. O aumento populacional parece ter despertado o adormecido instinto de sobrevivência, que não é só de ordem alimentar, mas também de espaço vital em que se fermenta a individualidade. É a crise da sociedade de massas. Parece que tudo é feito para multidões – audiência pública, aferição de consumo, tendência de gastos, enfim, parece que estamos nos omitindo de ensinar a essa nova geração que a ostentação do consumo é uma árvore com raízes pouco profundas, inclinada, como a Torre de Pisa, a alimentar ainda mais a divisão do coletivo em um agregado de ilhas pessoais sem rumo certo. É a sensação de provisoriedade ou a sociedade líquida de Zygmunt Bauman.
Nas escolas, nas ruas, nos campos e nas construções, somos todos iguais, braços dados ou não, respiramos o mesmo ar e pisamos no mesmo chão. Esse é o milagre que precisamos reconhecer.