Ao ameaçar não atender aos pacientes mais carentes por meio do Sistema Único de Saúde, a Santa Casa deixaria para trás mais de 100 anos de filantropia.
Muitas vezes, o que é escondido é justamente o que deve ser mostrado. Quando se enfatiza demais algum assunto, deve-se ter curiosidade para os temas não abordados. O comportamento da atual diretoria da Santa Casa nos últimos anos configura um destes casos. A julgar pelos momentos em que o hospital foi notícia não somente neste veículo, mas em toda a imprensa, sempre há relação quase direta com a busca – praticamente uma obstinação – por mais dinheiro público. Esta parece ser a pauta única da instituição.
A Santa Casa, entidade filantrópica mantida pela Associação Beneficente de Campo Grande, também foi notícia em razão das sucessivas reformas estruturais que tem promovido em suas alas dedicadas exclusivamente ao atendimento a pacientes de convênios e também os particulares. Quem conhece estes espaços se impressiona com a qualidade e – por que não? – o luxo e conforto oferecidos aos pacientes/clientes. Soa curioso ver que não existe o mesmo tratamento dispensado aos usuários mais carentes, cujos procedimentos são bancados via convênios com o poder público.
Recentemente, integrantes da diretoria do hospital falaram em deixar de atender pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Acreditamos que a concretização de tal ameaça seja um ato que beira – no momento – o improvável ou até mesmo o impossível. Em primeiro lugar, porque o hospital é extremamente dependente de recursos públicos. Não fosse desta forma, a instituição teria fluxo de caixa suficiente para pagar em dia o salário de todos seus funcionários – mesmo os que atendem às alas exclusivas dos pacientes de convênio e particulares – e não dependeria de paralisações, que mais servem para cobrar verba pública do que, precisamente, para honrar os compromissos com os funcionários.
Em segundo lugar, todos sabem que, no ano passado, a Santa Casa inaugurou, com toda pompa, sua mais nova unidade de trauma que, de tão grande, é chamada por todos de hospital. É bom lembrar que este anexo foi todo bancado com recursos públicos e que, por causa disso, deve atender exclusivamente aos pacientes do SUS. Se a Santa Casa sair do sistema único, simplesmente deve ressarcir a União. Tal conta não ficaria abaixo dos R$ 15 milhões. Seria interessante ver como o hospital sobreviveria somente com os recursos obtidos com os clientes particulares.
Porém, o pior desta declaração dos gestores da Santa Casa, em cogitar deixar a saúde pública, é o rompimento com a tradição filantrópica do hospital criado há mais de 100 anos. Será uma guinada definitiva nos princípios da associação beneficente, que abandonaria de vez os pacientes mais pobres. Foi o atendimento aos mais necessitados que transformou o centro de saúde no maior e mais importante hospital de de Mato Grosso do Sul. Se o SUS fosse deixado de lado, de santidade mesmo restaria muito pouco na instituição.