Diante do acontecimento ocorrido em Brumadinho, parece sensato retomar que cabe aos engenheiros a formulação de questões que podem ajudar a encontrar caminhos que permitam compreender fatos e uma perspectiva mais promissora de futuro. Assim, coloca-se a questão de haver crime ou não. Apesar de não sermos especialistas em direito, há uma aproximação possível: trata-se de um dos maiores acidentes de trabalho conhecidos da história do Brasil; de um dos maiores eventos destruidores com relação ao meio ambiente; de uma destruição de vários empreendimentos; do fim da vida para muitos; da morte de animais e de vegetais.
Nesse tipo de acidente, há responsabilidade por parte daqueles que têm poder de decisão, com possível culpa ou dolo pelas escolhas que fizeram ao dirigir as empresas.
As visões mais clássicas relacionadas com a segurança industrial estão baseadas em tentativas de atribuir culpa a alguém isoladamente. Além disso, no Brasil, a maioria dos acidentes de trabalho é analisada como de responsabilidade daquele que se acidentou.
É muito provável que se encontre alguns culpados por Brumadinho, em diferentes níveis da hierarquia da empresa, nos órgãos de fiscalização e de licenciamento. Entretanto, há que se questionar as escolhas organizacionais.
Sempre há aqueles que decidiram por algum tipo de tecnologia e de divisão do trabalho, mantendo operações, mesmo com sinais de problema. As escolhas engajam a responsabilidade, e a opção por algum tipo de abordagem que assegure que as probabilidades de um acidente sejam baixas é de regra. Ao tratar de probabilidades, estamos no mundo do conhecido. Os cálculos são feitos com base em dados do passado, esquecendo os fenômenos emergentes, resultados do acoplamento de variáveis.
Ao analisar os acidentes que ocorreram, a ideia é constituir, por meio de documentos e relatos, uma verdade factual. O resultado, em geral, contém distorções, originárias de narrativas moduladas por traumas.
Nas últimas décadas, o ideário do neoliberalismo trouxe impactos significativos nas políticas industriais, hoje muito mais centradas no retorno rápido para os investidores, que não têm interesse no processo produtivo, além do financeiro. Assim, a produção perde importância e os gestores tornam-se genéricos para qualquer tipo de processo, mantendo o foco no rápido retorno financeiro.
Para conseguir um maior alinhamento dos diferentes atores nas empresas, sobretudo os gestores de níveis mais elevados, os seus ganhos dependem diretamente dos resultados, principalmente os de curto prazo. As consequências no que diz respeito à segurança das operações podem ser nefastas.
Qual seria a decisão de um gestor de alto nível se tiver que escolher entre métodos mais seguros e mais custosos ou métodos que são também seguros, mas nem tanto e menos custosos?
Catástrofes são eventos de probabilidade baixa, o que incentiva agir para o lado do baixo custo. Entretanto, não têm probabilidade nula e, ocorrendo, trazem resultados como os que estamos vendo em Brumadinho.
A análise de risco, vista pela teoria da complexidade, deve levar em conta os dois fatores: probabilidade de ocorrência de um dado evento e seus resultados, caso ocorra. Como questionamento geral, há, no mundo da engenharia, um acúmulo de ideias ultrapassadas, baseadas em epistemologias do século 19, com a perspectiva de fragmentar os fenômenos para poder entender o que se passa e agir.
A importância desse tipo de racionalidade, profundamente baseada nas ideias de Descartes e posteriormente no positivismo, é inegável. Todavia, ela não é mais suficiente! Os sistemas são altamente entrópicos, os riscos são de grande monta.
Não se pode mais negar a importância de uma epistemologia relacionada à complexidade e sua visão integradora de processos para as questões da tecnologia, da economia, do trabalho e da sociedade. A produção mineral é estratégica, e produzir minérios pode ser uma fonte de riqueza. Entretanto, sem condutas de prudência para evitar externalidades catastróficas, perde o sentido.
O aumento de entropia está presente em todo sistema, levando à busca de mecanismos de regulação para alcançar novos tipos de ordem. Esse tipo de conceito pode ajudar a compreender os acidentes catastróficos, trazendo reflexões sobre as incertezas e sobre a incompletude de qualquer abordagem.
É claro que isso não explica tudo, pois há questões referentes às relações de poder e dominação, mas ajuda a pensar.
* Laerte Idal Sznelwar, Mauro Zilbovicius, Cláudio Marcelo Brunoro, Bernardo Luiz Rodrigues de Andrade, José Roberto Castilho Piqueira - Escola Politécnica da Universidade de São Paulo