A fronteira precisa ser ocupada por policiais, empreendedores e gente bem-intencionada. Só assim, o medo será varrido com os criminosos que lhe dão causa.
Há décadas que o crime organizado está na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Por questões demográficas, a região fronteiriça com a Bolívia, menos habitada, não é tão violenta, embora os criminosos também atuem de forma consistente por lá.
Voltando à região de fronteira seca com o Paraguai, numa extensa faixa localizada entre os municípios de Mundo Novo e Antônio João (em outros municípios, a divisão é feita pelos rios Apa e Paraguai), a ação dos criminosos tornou-se mais violenta nos últimos anos. Por isso, temos a impressão equivocada de que o crime organizado chegou por lá recentemente. O tráfico e o contrabando – condutas criminosas típicas de quase todas as fronteiras da América Latina –, porém, estão por lá há muito tempo. A diferença entre os tempos atuais e os de outrora está no comportamento das autoridades e dos traficantes e contrabandistas.
Nas décadas de 1980 e 1990, por exemplo, havia atuação mais repressiva de grupos especiais da polícia, como o de Operações de Fronteira (GOF – mais tarde transformado em departamento, o DOF). Os criminosos temiam a ação implacável desses agentes do Estado em nome da lei. Hoje, atos mais incisivos têm maior questionamento de setores da sociedade.
Entre os criminosos, também houve mudança no comportamento. Com o desembarque de quadrilhas que dominam o tráfico no varejo de grandes capitais, como Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), na região de fronteira, a violência típica desses grupos veio na bagagem. Se nas décadas passadas havia certo receio da presença de criminosos, agora os bandidos propagam o medo por meio de ações cruéis e cinematográficas. Execuções com armas de guerra e mais de uma centena de mortos nos últimos anos dos lados brasileiro e paraguaio são o reflexo da violência apresentada em sua forma mais crua, chocante e torpe.
É por causa do aumento da agressividade dos bandidos desta região que os prefeitos dos municípios que separam o Brasil do Paraguai queixam-se da insegurança em suas cidades. Elas já foram mais pacatas. O direito de ir e vir – que nesta área sempre existiu, mas era exercido de forma limitada – praticamente não existe mais.
Fronteira é área de segurança nacional. Não é de hoje que não somente as autoridades, mas toda a sociedade sul-mato-grossense pedem presença mais forte do poder público. Os policiais, fardados ou não, são o primeiro passo para que se possa concretizar essa desejada expansão do Estado, contudo, é preciso mais. É necessária uma nova delegacia da Polícia Federal em Ponta Porã, por exemplo. Um edifício grande, imponente e moderno, dá recado implícito aos criminosos: de que existe ordem. Também é urgente o reforço dos serviços públicos e incentivos aos empreendedores da região. Se existirem boas oportunidades para cidadãos que fazem a coisa certa, porque alguém da região entraria para o mundo do crime?
A fronteira seca entre Brasil e Paraguai, em Mato Grosso do Sul, precisa ser ocupada por policiais, empreendedores e gente bem-intencionada com espírito empreendedor. Só assim, o medo será varrido com os criminosos que lhe dão causa.