Sem noção, a princípio, é tudo que se contrapõe à lógica não para inferir um conceito, mas para o subverter ou se opor a ele preferencialmente com interesses despropositados, invertendo os princípios, as bases e as leis naturais, e por vezes interpretando como verdade causas como efeitos e vice-versa. A improcedência de declarações públicas, a inconsistência de afirmativas, as ideias desconexas, a inconsequência nas ações, a incoerência nas conceituações, as afirmações irracionais e confusas caracterizam o que se pode definir como SEM NOÇÃO.
Esse é o absurdo a que estamos submetidos ultimamente e que nos obriga a aceitar e conviver premidos por notícias, práticas, vontades, ditadas por toda sorte de pessoas completamente ilógicas (governantes, autoridades, jornalistas, profissionais de diversas áreas, amigos e familiares), sem consciência do ridículo, que afirmam mentiras e as divulgam sem prever as consequências do dito, ou desdito próprio daquele que fala o que não deve, na hora errada, sem pudor e na maioria das vezes sem nexo.
Assim é a silhueta das pessoas que não se coadunam com condutas pertencentes à curva da sanidade, fazendo suas regras de comportamento para afirmar suas decisões incoerentes, longe das responsabilidades a que estão submetidas e do mal que são capazes de causar na sociedade. Em suma, autores de autênticas “patacoadas”.
O momento se diz cenário resultante das mudanças rápidas (modernidade líquida) a que estamos submetidos longe das antigas estruturas formais de pensamento a nos exigir a aceitar adaptações de situações sem normas, incompreensíveis, efêmeras, antiéticas e falsas, levando a sociedade a venerar celebridades, ídolos, profetas e “salvadores da pátria”.
Assim, neste teatro do absurdo, desvirtuam-se os conceitos científicos sobre o aquecimento global, ao se afirmar que se trata de um estratagema econômico de adversários comerciais, ou que as necessidades migratórias são planos de invasão territorial, que incentivam a discórdia, promovidos por regimes políticos de esquerda que devem ser impedidos pela construção de muros. Países desenvolvidos que passam a reconhecer e apoiar autoridade em indivíduo que se proclama presidente “paralelo” e interino capaz de interferir na soberania de um país, cuja autoridade maior se vê representada democraticamente por eleições supervisionadas e avalizadas internacionalmente (ONU/OEA).
Entre nós, já ouvimos declarações alienantes de autoridades constituídas: “Todo mundo consegue trabalhar hoje até 80 anos”, como justificativa na intransigente defesa da reforma da Previdência, desconhecendo-se que a vida média da população é de 72 anos; ou ainda: “Trabalhadores têm que escolher entre ter direitos ou emprego”, quando se trata de uma reforma trabalhista que avilta as conquistas sociais.
A retórica sem noção dá sua graça, aliada ao descaso, ignorância ou desrespeito, quando o responsável da “pasta do Meio Ambiente” afirma desconhecer a pessoa-símbolo de Chico Mendes do ambientalismo brasileiro, reconhecido mundialmente pela ONU, ou de um “educador naturalizado” alçado à autoridade que declara: “Universidade não é para todos... e que representa uma elite intelectual, para a qual nem todo mundo está preparado ou capacitado”, ou que se refere aos brasileiros como “canibais”.
E aí vamos sendo atropelados por frases insanas como: “Meus filhos não ‘correm risco’ de namorar negras ou virar gays porque foram muito bem educados”; “Famílias pobres sem a presença de pai e avô, mas com ‘mãe e avó’, são ‘fábricas de desajustados’, que tendem a entrar no mundo do tráfico”; “Pais holandeses são instruídos a massagear sexualmente suas crianças”.
Ocorre, no entanto, que na comunicação se exige um receptor capaz de aceitar e admitir toda sorte de veleidade, de estar ao nível mental dessas mensagens emitidas, e para isso ser concretizado e aceito é preciso que essa turma de “escutadores lobotomizados” se identifique e se caracterize como esses “sem noção”. Devemos permanecer em alerta neste mundo infestado por “walking deads”, em completa alienação, torcendo para que a natureza nos conduza de volta à sanidade.
Todavia, o cúmulo da “ilogicidade”, do contrassenso, da insensatez está na assertiva em acreditar que devemos torcer por um número diferente do já sorteado, pois ele nos levará ao prêmio! Dar qualquer voto de confiança a qualquer grupo “porra louca” é um sinal de que estamos perdendo o equilíbrio com a realidade externa.