Praticamente todos os anos, a história se repete: a Justiça determina a suspensão de shows no Parque Laucídio Coelho.
A disputa judicial entre Ministério Público Estadual (MPE) e Associação de Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul) é antiga. A promotoria de Justiça questiona a falta de licenças ambientais para funcionamento e também crimes ambientais, como a poluição sonora. Por mais de uma vez, a realização de shows foi suspensa pela Justiça estadual, em decisões que foram revogadas posteriormente. Nesta semana, mais uma determinação proibindo a realização de eventos no local foi proferida, como mostra reportagem do Correio do Estado desta sexta-feira, e, independentemente do desfecho, é preciso que a Acrissul tome as medidas necessárias para se adequar.
Os shows durante a Expogrande viraram tradição na Capital. O evento tem, ou pelo menos tinha, como principal objetivo reunir produtores da região para discutir novas técnicas e, principalmente, fazer negócio. Sem as facilidades da internet, essas feiras eram pontos certos para a compra e venda de animais. Com o passar dos anos, também foi inserida nesse meio a programação de shows artísticos, que têm tomado conta diante do encolhimento cada vez maior dos eventos voltados para o homem do campo.
A questão aqui é que, nas últimas décadas, Campo Grande cresceu e o parque, que ficava em uma região afastada, hoje é rodeado de imóveis residenciais que sofrem todos os anos com o barulho alto. Se a Acrissul teve de acompanhar as mudanças realizadas no mercado do agronegócio, também precisa se atentar a essa nova realidade. A instituição pode até manter a tradição de realizar shows durante a Expogrande, desde que a população no entorno não tenha de pagar por isso. Investir em sistemas de acústicas é uma das alternativas existentes para reduzir os ruídos, medida que pode ser cobrada, por exemplo, da empresa contratada para a realização dos shows.
O ideal seria, porém, que a instituição avaliasse a construção de um novo parque, mais afastado da área urbana de Campo Grande. Em 2013, o então governador André Puccinelli doou uma área considerável para a Acrissul, com cerca de 24 hectares, para a construção do parque do criador. A área fica na saída para Três Lagoas, próximo ao autódromo de Campo Grande, local ideal para a realização de shows em qualquer horário da noite. Porém, seis anos depois, o projeto que acabaria com a dor de cabeça – com razão – de dezenas de famílias não saiu do papel.
Os shows da Expogrande, embora não sejam o real objetivo, são esperados por uma parcela considerável da população. Se a Acrissul quiser manter essa tradição, é preciso modernizar a estrutura existente – a começar pela atualização de licenças, passando pela questão da acústica – ou pensar em outros caminhos, como a mudança para uma área mais adequada. O que não se pode é que o direito de moradores da região seja ferido todos os anos, mesmo que por alguns dias.