Os automóveis de hoje se equiparam às carruagens de outrora. Quem as possuía eram nobres e abastados. A Revolução Industrial pôs um fim nisso. Hoje, todos desfrutam deste conforto pessoal pelo preço de certo desconforto coletivo. Acrescido a este conforto somou-se a velocidade. Carros potentes e pessoas apressadas. Às vezes sem motivo plausível, mas parece que ser apressadinho é sinal de ser bastante exigido, pelos outros e por si mesmo.
Nada irrita mais as pessoas do que ignorar sua presença. Irrita mais ainda serem ignoradas na direção do seu automóvel, símbolo do status quo moderno, adquirido, muitas vezes, com o comprometimento da sua renda mensal. Quanto mais caro maior é a demonstração de status. É a herança dos tempos das carruagens. Tem para todos os gostos, de modo a demonstrar um estilo de vida com sua devida capacidade de consumo. Em um acidente, por exemplo, a agressividade manifestada, na maioria das vezes, revela o tamanho da simbiose entre homem e máquina. Muitas vezes, ao carro é dispensado mais cuidado do que ao relacionamento familiar ou amoroso. Dar um carro ao filho que passou no vestibular tornou-se uma das formas de reconhecer seu bem-sucedido ingresso na vida adulta. A forma como irá utilizar e cuidar da sua manutenção, vai se tornar parâmetro da avaliação paterna sobre o desenvolvimento do seu caráter. Compõe a educação familiar moderna. Fazer o que?
Em trânsito, o automóvel se transforma de uma tecnologia de transporte para uma tecnologia de exibição, seja de uma elegância fabricada, de um humor que se altera conforme a fluidez do trânsito ou mesmo de uma tecnologia de retaliação por um não reconhecimento no lar, no amor ou na profissão. Geralmente se expressa em uma espécie de bullying psicológico, onde a impaciência, ganhando o reconhecimento de pressa justificável, permite grosserias indevidas de todos os quilates. A culpa recai sempre no trânsito, como se fosse planejado para poucos mortais que teimam em usufruir o fluxo a bel prazer do seu estado emocional.
Nesse panorama psicológico o bicho homem é traído pelas emoções não digeridas durante a noite, que ao amanhecer já se transformou em ansiedade, e ao tirar o carro da garagem se transformar em pressa. As consequências podem ser várias, mas deixa sempre alguma marca da pressa moderna, no corpo ou na mente.
Nossos gestores públicos bem que poderiam pensar em alternativas menos onerosas entre custo e benefício, a exemplo de estabelecer horários diferenciados de entrada e saída de trabalhadores do comercio, órgãos públicos e da iniciática privada. Os horários adotados atualmente colocam todos no mesmo horário em um mesmo espaço. Tais horários se trata de mera convenção que se solidificou culturalmente, virando habito. Nada que não possa ser pensado, discutido e operacionalizado. No comércio, nos órgãos públicos e na iniciativa privada os horários de maior produtividade certamente não estão nas primeiras horas de expediente.
Sempre é bom lembrar aos velocistas do trânsito publico que a pressa é irmã siamesa da improvisação matutina e de uma noite ansiosa em sono e em sonhos, e não se pode descontar isso nem no pedal do acelerador e nem nas pessoas.
Ao sair de casa, olhe no para-brisa da sua consciência onde poderia estar escrito, todos os dias da semana, MUITA CALMA NESSA HORA COM PÉ DE BAILARINA E OLHO DE AGUIA.
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