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OPINIÃO

Rodrigo Augusto Prando: "Um dilema para Bolsonaro"

Cientista político

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Há um dilema ainda não proposto para Bolsonaro, mas que, creio, chegará em algum momento. Em verdade, o dilema está latente, contudo, não reconhecido pelo atual presidente. Em termos gerais, há a seguinte escolha: 1) dar um basta nas pautas e ações ideológicas e, com isso, irritar os eleitores bolsonaristas; e 2) focar na administração do Estado, de forma pragmática, democrática e republicana, e com isso ganhar liderança e capital político, que foi rapidamente dilapidado nestes meses iniciais de governo. Vejamos.

A conjugação de pautas mais ideológicas como, por exemplo, a mudança de embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém; a promoção de facilidades para posse e porte de armas; o corte de verbas para as universidades; a tentativa de sucatear cursos da área de Humanas, como Filosofia e Ciências Sociais; os retrocessos no Ministério do Meio Ambiente, entre muitas outras. Tais pautas denotam que não há uma racionalidade que implique na correta projeção das consequências daquilo que é dito ou arquitetado. No limite, há mais paixão, ideologia, voluntarismo e amadorismo do que, efetivamente, uma ética da responsabilidade.

Soma-se a isso os dizeres de campanha que teríamos um governo liberal na economia e conservador nos costumes. Até o momento, são visíveis as pautas conservadoras e pouco de liberalismo, uma vez que as intervenções de Bolsonaro na política de preços da Petrobras e as falas sobre os juros do Banco do Brasil trouxeram prejuízos às instituições. Há, claro, a MP da liberdade econômica, que deve ser elogiada e aprofundada, bem como as tratativas em relação à reforma da Previdência. Mas, tirante esses dois últimos bons exemplos, o governo foi, até o momento, bem mais inoperante do que proativo no que tange aos problemas reais, concretos, da sociedade brasileira. Além da guerra virtual promovida por Olavo de Carvalho e parte dos filhos do presidente contra membros do atual governo, como, recentemente, o general Santos Cruz, e as ofensas ao ex-comandante do Exército, o general Villas Bôas.

Tem ficado nítido para os atores políticos e para os analistas que as falas de Olavo de Carvalho ou do filho Carlos são referendadas por Bolsonaro, que não pode proferi-las pessoalmente. Abandonar essa conduta ideológica teria de se assentar numa mudança radical das ações em alguns ministérios ou, até mesmo, no desligamento de alguns ministros desse atual governo: Damares Alves, Ernesto Araújo, Abraham Weintraub e Ricardo Salles, por exemplo. Estes poderiam ser substituídos por figuras de destaque em suas áreas e com capacidade técnica, intelectual e de gestão para as funções que os ministérios reclamam. Outro ponto seria limitar a importância que filhos e Olavo de Carvalho assumiram neste governo paralelo.

Se o presidente Bolsonaro optar por essa escolha, terá o ódio daquele bolsonarista raiz, bem como de Olavo de Carvalho. Em contrapartida, pode ampliar sua base no Congresso Nacional e na própria sociedade. Feito isso, poderia o presidente focar em temas estratégicos: reforma da Previdência, uma boa articulação política, reforma fiscal e tributária, reforma política, diminuição da violência, retomada do emprego e melhoria dos nossos péssimos índices educacionais. Se Bolsonaro conseguisse só metade – ou um terço – disso, já estaria colocado como forte candidato à reeleição.

Até o momento, esse dilema sequer foi assimilado pelo governo. As falas e ações têm privilegiado as pautas ideológicas e a guerra virtual contra os próprios aliados no governo em detrimento de uma administração estratégica de problemas reais. Até quando?

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