Este ano será lembrado como um dos mais difíceis anos para o meio-ambiente. Claro, as pessoas ainda não se importam muito, esta é a verdade. Reclamam de que querem um meio-ambiente sadio, mas continuam a jogar o lixo na rua, sujam pastos ou rios, põe fogo em terrenos baldios, derrubam árvores dentro das próprias cidades, usam fogos de artifício para comemorações e assim vai, e isso quando não caçam ou pescam de maneira predatória.
O fato é que enquanto o meio-ambiente não atingir a realidade do dia-a-dia das pessoas, ele continuará a ser apenas assunto dos “ecochatos”. É compreensível. Nossa civilização treina as pessoas para se “des-sensibilizarem”, se desumanizarem, enquanto que, para se prestar atenção na natureza, é preciso ter certa sensibilidade. Porém, como disse, nossa preocupação comum é como pagaremos as contas do fim-de-mês e, se formos um pouco éticos, com a família e amigos. Para por aí. Qualquer preocupação com a sociedade é algo distante, e com o meio-ambiente, mais distante ainda.
Neste ano, contudo, a realidade ambiental, que não é nada boa - atingiu boa parte da realidade dos brasileiros. Primeiro com Brumadinho, depois, no norte e centro-oeste, com as chamas estimuladas por uma seca terrível que, segundo alguns, já poderia ser consequência da deflorestação excessiva da Amazônia (na verdade, o que se sabe é que a devastação da Amazônia provocaria um queda acentuada das chuvas no centro-oeste. Eu mesmo, que além de ecochato sou produtor rural, perdi 150ha para as chamas no Pantanal). Após, e ainda enquanto a Amazônia queimava, no Nordeste, um vazamento de óleo que não se sabe da onde vem, e que parece não ter fim, atinge praias antes paradisíacas. Esses três choques de realidade, que vão para além do desmatamento que parece ter aumentado drasticamente, trazem a pauta ambiental para o centro da discussão política brasileira, atrás apenas talvez da sempre-presente pauta econômica.
E é aí o ponto essencial: alguns já perceberam que para um boa pauta econômica precisamos apresentar uma pauta ambiental adequada, o que não estamos fazendo. Em Brumadinho, para não falar na inestimável perda de vidas humanas, bairros, vilas e chácaras inteiras tiveram que ser refeitas. No centro-oeste, o agronegócio se assustou com a seca. Talvez ela seja pior no futuro, com a derrubada da floresta. Talvez sequer haja espaço para o Brasil vender seus produtos em outros mercados, que, sob o pretexto de de possuirem um selo-verde, boicotarão nossos produtos para exportar os deles. E o Nordeste, certamente, já perdeu e perderá milhões com o aporcalhamento de suas praias, em uma época em que este dinheiro seria absolutamente vital. De fato, agências de turismo e hotéis já reclamam de prejuízos recordes, e tudo isso pra não falarmos na destruição da vida marinha, incalculável.
Então, ao invés de polarizarmos ainda mais a questão, procurando culpados, acusando-nos uns aos outros, validando teorias conspiratórias, porque não simplesmente trabalhamos para evitar essas coisas? Porque não assumimos a responsabilidade de mudar isso aí? Afinal, o governo nada mais é do que nossa encarnação jurídica. Se o governo pode (e deve) fazer algo, certamente nós podemos muito mais. Percebam que é no mínimo curioso que esta época de grande polarização política seja também uma época de grande destruição ambiental. É como se o estado consciencial dos brasileiros refletisse diretamente na realidade ambiental nacional.
Podemos começar a mudar isso fazendo nossa parte, aqui e agora. Você tem uma árvore plantada na frente da sua casa? Você demonstra que é preciso ter cuidado com os animais, não usando fogos de artifício com estampido, por exemplo? Você já pensou em separar o lixo reciclável do não reciclável de sua residência? Sua cidade tem lei de IPTU verde? Tem um plano de arborização e de limpeza? Seu município verifica a qualidade da água que você usa? Como está o tratamento de esgoto na sua região?
Afinal, tudo isso ajuda o meio-ambiente. Mas ajuda muito mais a economia. Nosso planeta precisa de um novo pacto econômico ambiental. E ele começa por você.