No dia 8, após a decisão do Supremo Tribunal Federal, que considerou inconstitucional a prisão após o julgamento em segunda instância, a população brasileira assistiu estarrecida à soltura do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e de vários dos seus correligionários, como o ex-ministro José Dirceu, todos condenados em segunda instância por crimes de corrupção, mas aguardando o julgamento de recursos nas instâncias superiores (STF e STJ).
Sem nos embrenharmos no aspecto jurídico da decisão – que certamente permite acalorada discussão entre nós juristas brasileiros –, temos de analisar esse fato sob outro prisma, com as possíveis implicações para o Brasil. Sem dúvida, a liberação de Lula ocasiona um impacto político-social, notadamente para os que se encontram nas extremidades da política brasileira. Segundo pesquisa do Ibope, na última eleição presidencial, Lula tinha um séquito de correligionários de aproximadamente 27% (vinte e sete por cento) dos eleitores. Já na outra ponta, somam 31% (trinta e um por cento) dos eleitores fiéis a Bolsonaro que aprovam o governo do Presidente.
Logo, analisando a recente conjuntura política do Brasil neste século 21, constata-se que o poder foi polarizado ao longo das duas primeiras décadas entre partido de esquerda (PT) e agora de extrema direita(PSL). Com isso, discursos inflamados, com radicalismo, viraram rotineiros na política, como se existissem duas nações brasileiras separadas dentro do mesmo território, as quais caminham em sentidos diametralmente opostos.
É fato que para romper com legado de corrupção que assolou o País foi necessário ir de um extremo ao outro. Porém, este outro extremo também vem se revelando incapaz de gerir com bom senso e maturidade os rumos da nação. E o insucesso desse fenômeno extremista tem explicação: toda paixão cega. Com efeito, os sãos princípios da moral e da razão sucumbem diante de qualquer sentimento exacerbado que não permite enxergar com clareza nada além do próprio ponto de vista, levando a condutas despidas de razoabilidade, que contaminam e viciam qualquer decisão pautada no bom senso.
O filósofo e pensador grego Aristóteles (384-322 a.C.) já ensinava que “a virtude está no meio do justo equilíbrio entre dois extremos”. Para ilustrar esse pensamento, imaginemos a coragem como virtude. Se vier exagerada, vira imprudência. Por outro lado, se for módica, revela covardia. Sem dúvida, esse pensamento continua mais atual do que nunca, calhando ao momento vivido pelo Brasil. Transpondo a lógica aristotélica à política brasileira, não há como construir o caminho do equilíbrio com a cegueira apaixonada dos extremos.
Neste contexto, a liberação de Lula acaba exercendo o “sistema de freios e contrapesos” na política brasileira, abrindo espaço para que surja uma necessária terceira via, com novas lideranças que venham a equilibrar esse lamentável cenário de excessos. Como diz o jargão popular, “se a vida me der um limão, faça dele uma limonada”. Sem dúvida, a liberação de Lula pode ser entendida como um limão. Mas permite à maioria dos eleitores brasileiros(aproximadamente 40%), fatigados dos extremos e das cegas paixões políticas, a expectativa de que o encontro de dois limões [extrema direita x extrema esquerda] surja a limonada, capaz de conduzir, com sabedoria e equilíbrio, o País a novos rumos.
Portanto, ainda que o aspecto jurídico da libertação de Lula cause compreensível indignação social, sob o ponto de vista político, pode resultar num possível equacionamento da política brasileira, permitindo que ela encontre, segundo os ensinamentos do filósofo grego, um novo caminho: o do “meio”, limonada que espelha os verdadeiros anseios da maioria da nação, de modo a permitir, sem retrocessos e excessos, a construção de uma sociedade mais justa e perfeita.