Artigos e Opinião

ARTIGO

Gilberto Verardo: "Ressentimento acumulado"

Psicólogo

Fábio Oruê

25/11/2019 - 02h00
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Várias manifestações mundo afora e aquela ocorrida recentemente em Campo Grande, entre populares e Guarda Municipal, merecem uma outra opinião.

Fui instrutor de Polícia Comunitária nos idos anos de 2008. Trata-se de uma filosofia de controle social na qual a integração e o convívio diário entre corporação e população civil estão em constante movimento. Teve início no governo de Tasso Jereissati no Ceará e depois foi adotada pela PM de São Paulo, terminando por se instalar na Secretaria Nacional de Segurança Pública em Brasília. Uma das vantagens é a desmistificação do poder de polícia. Incluí nessa proposta os Núcleos de Resolução de Conflitos nos bairros mais problemáticos. Apesar da resistência, MS conseguiu incutir em muitos policiais esta filosofia, melhorando em muito não só a eficiência como aimagem da corporação, prevenindo distúrbios provenientes do distanciamento entre policiais e sociedade civil, os quais fragilizam a sensação de pertencimento, tão cara à saúde social e pessoal. No caso da nossa Guarda Municipal, estão repetindo o modelo militar ainda muito incrustado na PM. As ocorrências são atendidas quando provocadas por denúncia ou solicitação popular, em razão do modelo de aquartelamento também adotado pela Guarda Municipal.

Quando o falecido vereador Ojeda liderou a aprovação de Projeto de Lei que modificava as atribuições da GM, para logo em seguida criar a Secretaria Municipal de Segurança Pública, institucionalizava-se a criação de uma espécie de “Navy Seals Guaicuru”, expressos no tipo de uniforme, hierarquia e outros adereços, na farda e nos equipamentos desnecessários para a população ordeira e civilizada de nossa cidade. Esse estranho contingente começou a tomar forma na deficiência do processo seletivo presente em outros concursos públicos. Talvez a pressa tenha impedido de filtrar personalidades com traços sociopáticos. Claro que existem meios, métodos e técnicas eficientes. Mas…. Deixa para lá!

Nós, contribuintes, gostaríamos que o secretário municipal de Segurança, delegado (ex) Azambuja, conhecesse a filosofia de atuação da Polícia Comunitária. Certamente poderia oferecer outro modelo de controle social, diferente do que é oferecido pelas instituições tradicionais e problemáticas. Afastar-se da população, aquartelando-se e trabalhando apenas em regime de ocorrências provocadas (denunciadas) não é o que desejamos. É como se pagássemos para criar uma tropa inimiga, sendo nós os contribuintes masoquistas precisando sofrer ainda mais, infantilizando a autodeterminação que a Constituição cuidou de fomentar e proteger. Mesmo tendo como característica principal da multidão o anonimato, a ausência de responsabilidade pessoal e o desordenamento temporário (dura o tempo da manifestação), não institui nem o direito e nem o dever de Guardas Municipais se tornarem o exército da salvação contra o rancor e o ressentimento coletivo, nutrido pela discrepância entre o falar e o fazer dos poderes públicos e prestadores de serviços terceirizados, já que são devidamente remunerados pela mesma população com que querem uma relação de truculência. Pessoas (usuários) têm o direito de expressar sua insatisfação com um serviço público insatisfatório.

Arranhou a imagem sensata e bondosa do prefeito Marquinhos Trad. Desmilitarizar a Guarda Municipal é a ordem do dia. Poderia começar pela troca de secretário, colocando um de naipe civil, e dos uniformes, resgatando o dever do convivo pessoal com a população. Talvez assim possam perceber que os inimigos não são os contribuintes, mas a imagem que povoa o inconsciente, concebida nos cursos de formação, que enaltece a atuação mais na militarização do que na humanização de procedimentos. A violência sempre é provocada por um dos lados. Não partiu dos populares contribuintes, mas da corporação, que precisa fazer – além de um exame de consciência – cursos de Relações Interpessoais no Setor Público, largamente utilizada na gestão de Nelsinho Trad quando servidores públicos cometiam deslizes sérios na prestação de serviços à população. Apenas a punição não resolve nem o problema da população e nem o problema de comportamento dos servidores. Tudo isso gera um custo para a imagem da prefeitura e para o acumulo de ressentimento da população. Sabemos que nosso prefeito tomará providências. O que acontece não se parece em nada com a filosofia de vida pessoal e administrativa do nosso prefeito.

 

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