O Tratado de Tordesilhas firmado entre o rei de Portugal, D. João II, e os reis católicos de Espanha, Fernando e Isabel, foi uma grande peça de ficção. O seu desrespeito foi a prova inconteste. A formação das entradas e das bandeiras empunhadas pelos homens intrépidos e corajosos em busca das tão sonhadas pedras preciosas foi a sua causa determinante. Para se apossarem das pedras preciosas, arrostavam todos os perigos. Inclusive as doenças que os levavam à morte. Mas não foi apenas a busca desses metais preciosos que animaram esses homens a violarem o Tratado de Tordesilhas.
Foram incentivados pelos seus monarcas a expandirem os domínios territoriais de Portugal em terras da Espanha. Outra vertente valiosa que resultou importante para a fixação do homem além da linha imaginária foi a pecuária. Essa infraestrutura teve um papel preponderante em nosso processo de desenvolvimento econômico, social e político. A derrubada das matas para a atividade do pastoreio resultou no embrião dos nossos povoados, vilas, distritos, que depois se transformaram nas grandes metrópoles. Esse é um fato incontestável. Os relatos dos nossos historiadores sustentam essa opinião. Da nossa pecuária, surgiu o comércio. O nosso país ao longo da sua história viveu fortemente sob a égide da força econômica representada pela pecuária e pelo comércio. O nosso Mato Grosso e, depois, o nosso Mato Grosso do Sul são os exemplos maiores. Outros tantos estados federados que têm na pecuária e no comércio suas principais estruturas econômicas afiançam o nosso propósito.
Protagonizei uma parte pequena, quase ínfima, dessa fase histórica. Foi na minha linda Campo Grande dos anos 50. Um período exuberante. Rico, sobretudo. A fartura na mesa do campo-grandense representada especialmente pela qualidade exuberante da carne fazia a grande alegria das nossas famílias. Qualquer pensão, ou mesmo hospedaria, oferecia à sua clientela uma alimentação abundante e rica. Não me lembro da fome. Da vida simples, sim. Mas da fome, nunca. Talvez porque não existia naquela época esse malfadado processo inflacionário que corrói a moeda e leva ao desespero a população carente. Não se trata de nenhuma conversa desacompanhada de fundamentos. Vamos oferecer apenas um exemplo entre outros tantos que poderiam ser alinhados.
As escolas particulares à época cobravam dos pais dos alunos a anuidade. Foi a fase áurea de uma vida feliz. Reservada apenas para a nossa geração. Mas não podemos ser hipócritas. Existia também a miséria. Essa nasceu com a própria humanidade. Mas todos se alimentavam. Hoje o mundo mudou. A disputa pelo comércio mundial desse produto pode ser um desses tentáculos. Trata-se de uma competição ensandecida. Aqui reside o nosso propósito para submeter aos leitores opiniões sobre o encarecimento da carne e ainda a falta na mesa do homem simples do povo. A nossa ministra da Agricultura, Tereza Cristina, já se pronunciou pela grande imprensa nacional que dificilmente o preço da carne cairá. A nossa ministra é competente. Sabe o que está falando. Nasceu no berço de grandes pecuaristas. Foi uma das escolhas preciosas do nosso atual governante.
No rastro desse entendimento, podemos afiançar que a carne dificilmente fará parte do cardápio do povo brasileiro. Uma verdadeira maldição. Sobretudo, em nosso rico estado, que tem nos seus vastos campos de criação de gado essa riqueza singular. Esse propósito não pode prosperar. Exportar a carne e não deixar o nosso povo usufruir dos seus benefícios para a saúde é uma grande maldição. Algo desumano. Não sou pecuarista, não conheço o mercado do boi gordo, tampouco os protocolos internacionais para a comercialização desse produto. Todavia, sobre qualquer das hipóteses que quiserem debater torna-se inócuo outro tipo de entendimento. A riqueza, o dinheiro, a propriedade e outros tantos bens materiais que podem garantir a independência econômica das pessoas precisam obrigatoriamente alcançar o conjunto da nossa população. Trata-se de uma irrefutável verdade. A situação só é boa quando é boa para todos. O conforto, a segurança, o bem-estar não podem ser privilégios de alguns. Isso não faz nenhum sentido.
Os romanos legaram-nos esse precioso exemplo. Não deixaram apenas o pão e o divertimento para os seus governados. Deixaram muito mais. Demonstraram a generosidade dos seus propósitos consubstanciados na distribuição das terras que conquistaram. Assim surgiu o feudalismo. Esse foi o grande exemplo dos seus imperadores. O desapego aos bens materiais. Os então vassalos tornaram-se suseranos e fomentaram a distribuição de renda entre os seus iguais. Desse contexto outra verdade se sobressai. A ambição desenfreada de alguns poucos maltrata o espírito do homem e o leva, inquestionavelmente, a se afastar de Deus. Não existe outra interpretação a ser dada. Com a palavra a senhora ministra de Estado da Agricultura e Pecuária, Tereza Cristina.