O pequeno espaço em frente a nossas casas tem um papel social e urbanístico maior que sua metragem. Ele revela, com suas diferentes aparências e tempo, o encontro entre o lado individual e o coletivo de todos nós. Situado exatamente entre o aconchego do nosso espaço inviolável e a rua livre, ele rouba um pouco do segredo que não queremos tornar conhecidos. Há calçadas abandonadas, enfeitadas, arborizadas, novas, antigas, convidativas e até amistosas. A calçada é sempre um convite para adivinhar o que está por trás dos muros. Pela aparência, muitos imaginam como é a extensão da calçada dentro de quatro paredes. Serão alegres? Sisudas? Acolhedoras? Quem sabe! Mas cada calçada de cada casa pode revelar uma história diferente e única, assim como as pessoas querem ser.
Urbanisticamente falando, calçadas são território neutro. Nem pessoal demais para garantir a extensão da sua casa nem pública por inteiro a ponto de cercear o ir e vir dos seus habitantes. Por isso é a fronteira entre o aspecto individual dos moradores e o modo como se inserem na coletividade em que residem. Assim como pessoas, calçadas sempre requerem cuidados especiais. Podem dar o tom de vizinhança ou de reserva. Cada espaço desses pode revelar a importância que dispensamos para as pessoas. É nosso cartão de visita, queiramos ou não. Umas são a extensão da casa. Outras seu término.
Por onde se anda, pelo menos no quadrilátero central, a guia de orientação para pessoas com deficiência visual no centro das calçadas campo-grandenses mostra o lado civilizado e solidário com elas. É uma das raras cidades brasileiras com tal suporte.
Calçadas também são encontros, mesmo que os olhos não encontrem outro olhar. É como se fossem um espaço provocativo para sair do anonimato, que, qual uma prisão de pensamentos, não pode evitar o desejo de ver e ser visto, de cumprimentar com os olhos e de dizer “eu exito” sem palavras. O melhor de nossas calçadas é a possibilidade de cumprimentar uma pessoa estranha e torná-la sua amiga anônima. É o lugar de sentir que pertence a um lugar, mesmo estando apenas de passagem.
Calçadas mostram muito do espírito de uma cidade. Mas tudo começa na calçada em frente a sua casa.
A vida moderna, com sua pressa interminável, roubou as cadeiras dos fins de tarde na boa e gratuita escola de conversações amistosas. Calçadas são espaços democráticos criados para fomentar a sensação de vizinhança e pertencimento, além de nos fazer desconstruir a insegurança esquizofrênica de não conhecer quem mora ao lado. Calçadas são para encontrar pessoas vizinhas e distantes. Os idosos e cadeirantes pensam que as calçadas poderiam ser mais fraternas e solidárias. Bem que poderiam existir arquitetos de calçadas e namoros voltassem a ocorrer neste espaço neutro, onde tudo pode começar ou terminar. Sem saudosismos à parte, mas as calçadas de antigamente eram estratégicas para muitas situações. Mesmo sem sair, as calçadas ofereciam certa autonomia. É como se fossem um laboratório experimental para a fase adulta negada dentro de casa. Precisamos recuperar esse território da cidadania e torná-lo uma extensão do nosso afeto pela cidade em que moramos.