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ARTIGO

Luiz Carlos Pais: "A morte do general Soleimani"

Professor sênior da UFMS

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Não entendo muita coisa de política internacional, mas, como cidadão, confesso que a morte do general iraniano Qasem Soleimani e outros militares, vítimas de uma operação feita pelos Estados Unidos, fez aflorar muitas dúvidas em minha consciência. Por certo, a questão envolve uma complexa rede internacional de poderes econômicos, valores religiosos e políticos. Mas, como o mundo está cada vez menor e os países cada vez mais interligados no plano econômico, não seria exagero admitir que a morte do general possa desencadear conflitos com reflexos em nosso País. O que está de fato por trás dessa operação militar? Os Estados Unidos podem jogar mísseis sobre o território de outro país? Até que ponto as diferenças entre xiitas, curdos e sunitas podem ser superadas para fortalecer uma reação contra os Estados Unidos?

Por certo, há grandes diferenças entre os grupos religiosos e étnicos internos ao Irã e ao Iraque. Mas o grande risco parece ser o poder de uma força maior, talvez de natureza religiosa, que possa superar essas diferenças para combater a grande potência militar da atualidade. Deputados curdos e sunitas não compareceram à sessão do parlamento iraquiano que aprovou a saída das tropas americanas daquele país, mas ficou clara a existência de uma maioria vitoriosa da linha política xiita. 

A questão está mergulhada numa guerra de retórica. Do lado iraniano, houve a afirmativa de que haverá vingança, sobre os gritos de “morte à América!”. Do lado dos Estados Unidos, o presidente Trump anunciou que caso haja algum ataque por parte do Irã, 52 alvos serão destruídos dentro daquele país, incluindo símbolos culturais e outros que podem estar na fronteira dos valores religiosos. O número 52 é simbólico, porque esse foi o número de cidadãos estadunidenses mantidos como reféns, por mais de um ano, no contexto da crise decorrente da revolução islâmica de 1979. 

É possível conciliar os valores cultivados por uma república islâmica teocrática com os interesses bem mais pragmáticos do que democráticos da grande potência econômica do mundo ocidental? Há pouco mais de 30 anos, houve uma guerra entre Irã e Iraque. Agora, parte do Iraque aproxima-se do Irã para combater os Estados Unidos. Por trás dessa aproximação, o general Soleimani criou estratégias e milícias para atacar as bases americanas dentro do Iraque. Entre tantos símbolos ainda há mais um, que consiste em transladar o corpo do general por diferentes cidades, incluindo lugares sagrados, despertando o sentimento nacionalista do povo iraniano.

O Irã já anunciou que não mais acatará o programa de redução de produção de material nuclear, embora tal afirmação não implique na fabricação de armas nucleares. Para finalizar, há ainda a pontualidade do momento, quando uma crise política está em curso na Casa Branca, quando o presidente, sob ameaça de impedimento, ainda sonha com a sua reeleição. Ao afirmar o presidente Trump que “o Irã nunca vai ter uma bomba nuclear”, somos levados a mais uma dúvida: até quando vai a retórica e começa a ameaça de ocorrer um efetivo ataque contra aquela república teocrática islâmica?

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