Hoje, nós, pessoas com deficiência, somos mais tolerados do que incluídos. Nos toleram por conta da Lei de Cotas (art. 93 da Lei nº 8.213/1991). Então, nem poderíamos imaginar como seria se essa lei não existisse – uma lei que é tratada com descaso, assim como a Lei Brasileira de Inclusão (LBI, nº 13.146/2015). Com certeza, sem essas legislações, não teríamos oportunidade de trabalho e estudo. Mesmo com a lei, é difícil encontrar uma vaga que não seja inferior ou limitada a subempregos.
Se não existisse tanto preconceito no mundo, não haveria a necessidade da Lei de Cotas. Ainda assim, ela não é muito respeitada, conforme mencionei anteriormente. Logo somos dispensados ao fim do período de experiência, e nos perguntamos: por que as empresas se dizem “inclusivas” se não cumprem a lei? Digo isso por experiência própria.
Ainda existe a esperança de que chegará o dia em que as empresas – bem, na verdade, o problema não está apenas nas empresas, mas sim na gestão tóxica, em sua cultura e no clima organizacional – deixarão de usar esses fatores como escudo para se protegerem. Ou seja, não existem igualdade, equidade, empatia, conhecimento e reconhecimento para aqueles que querem ocupar seu lugar na sociedade. Mas vai chegar o momento em que não será mais possível escolher entre tolerar ou incluir: ou inclui, ou inclui.
Podemos, com isso, citar a meritocracia, que é um sistema social em que o sucesso e as oportunidades são distribuídos com base no mérito individual – ou seja, no desempenho, na competência e no esforço de cada indivíduo –, e não apenas na origem social ou nos atributos hereditários.
Esse sistema busca a justiça social ao reconhecer o trabalho e o empenho, proporcionando igualdade de oportunidades para que todos possam alcançar seus objetivos. Isso, no entanto, não acontece nas empresas que têm como única preocupação o preenchimento de cotas, e não o acolhimento do potencial e de qualquer parceria na tentativa de crescimento conjunto entre funcionário e organização.
É claro e evidente que a inclusão, infelizmente, ainda é uma ilusão, um faz de conta. Mas ela depende muito de nós também. Não podemos esperar apenas do governo, pois há mais retrocessos do que avanços. Ainda assim, devemos lutar por nossos direitos, mostrar que temos capacidade e vontade de alcançar nossos objetivos – tanto na escola quanto no mercado de trabalho.
Às pessoas com deficiência cabe fortalecer e impor respeito, pertencimento e empoderamento. Lutar contra o capacitismo e lembrar que um diagnóstico não é destino, e sim um ponto de partida. A deficiência não nos define, não nos representa. Temos que nos ater ao bom e velho ditado: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Ou seja, continuar batendo na mesma tecla incansavelmente, mostrar a cara, sair do “armário da deficiência”.
Já houve avanços, mas ainda há muito a fazer. Vamos ser ousados e fazer o que ainda não foi feito. Não precisamos de piedade nem de sermos tratados como coitados e ingênuos – porque não somos. Somos abastecidos de coragem, conhecimento e sabedoria para nos desenvolver, respeitando nossos limites, sem desistir de nós mesmos.