Artigos e Opinião

EDITORIAL

As megafábricas e os megacalotes

É hora de as gigantes da celulose repensarem suas práticas de contratação e fiscalização. Não basta assinar contratos robustos e terceirizar também a responsabilidade

Os efeitos colaterais dos grandes investimentos continuam existindo, e não é de hoje que a economia de Mato Grosso do Sul conhece o lado sombrio por trás dos bilionários anúncios de novas plantas industriais. No ano passado, o Correio do Estado revelou em primeira mão que, pelo menos, duas fornecedoras terceirizadas da Suzano, durante a construção da planta de Ribas do Rio Pardo, aplicaram calote milionário em empresas quarteirizadas. A consequência foi devastadora para pequenos e médios prestadores de serviço, que ficaram com o prejuízo, enquanto a engrenagem da obra seguia girando.

Na edição de ontem, novamente com exclusividade, o Correio do Estado trouxe à tona indícios de que um cenário similar pode estar se formando na construção da unidade da Arauco, em Inocência. A história parece se repetir: a mesma lógica, os mesmos riscos, a mesma sensação de que, no rastro da euforia dos grandes empreendimentos, há sempre quem acabe esmagado pelas engrenagens da cadeia de produção.

É verdade que empreendimentos dessa magnitude – com investimentos bilionários e prazos apertados – são suscetíveis a problemas de execução: atrasos, calotes, descumprimento de contratos e conflitos judiciais. Isso, no entanto, não pode ser tratado como algo natural, muito menos inevitável. A normalização desse tipo de prática cria um terreno fértil para a má-fé e mina a confiança no ambiente de negócios.
E onde fica a boa-fé? É impossível ignorar casos como o de uma empresa que recebeu R$ 23 milhões por serviços e, contratualmente, deveria repassar 5% do faturamento a um parceiro. Não o fez. A pergunta que não quer calar é: por quê? Esse silêncio sobre a responsabilidade direta abre espaço para que a impunidade se instale e os erros se repitam.

Na megafábrica anterior, uma empresa de transportes deixou um rastro de dívidas com quarteirizadas. A culpa direta, sim, é da terceirizada inadimplente. Mas os beneficiários indiretos são as próprias gigantes da celulose, que se beneficiam do serviço prestado e, no fim, permanecem blindadas dos prejuízos que terceiros assumem. Não se trata apenas de uma questão legal, mas moral: quem lucra com um serviço não pode se omitir quando há injustiças no caminho.

Tudo que começa certo deve terminar certo. Esse princípio, simples e óbvio, parece ser facilmente esquecido quando a obra é grande demais. Mas quem paga mal, paga duas vezes – seja com a imagem arranhada, seja com a desconfiança crescente dos fornecedores, que passam a evitar negócios arriscados.

É hora de as gigantes da celulose repensarem suas práticas de contratação e fiscalização. Não basta assinar contratos robustos, é necessário monitorar o cumprimento deles e evitar parcerias com empresas conhecidamente desonestas. A prosperidade que esses empreendimentos prometem só será plena se for compartilhada com todos os elos da cadeia produtiva – e isso inclui garantir que cada trabalhador, cada prestador de serviço, receba pelo que fez. Caso contrário, estaremos perpetuando um ciclo em que poucos ganham muito e muitos perdem tudo.

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