Nesta edição trazemos dois temas centrais e complementares relativos à ocupação do espaço urbano em Campo Grande. Ambos dizem respeito à forma como a cidade se organiza, cresce e oferece serviços à população. De um lado, a gestão municipal acerta ao enfrentar os chamados “vazios urbanos”, áreas grandes mantidas sem uso por investidores que especulam com o preço dos terrenos, de outro, ainda erra na condução da política de transporte coletivo, embora se perceba um esforço de correção de rota diante de decisões judiciais recentes.
No primeiro ponto, a prefeitura acerta ao propor mudanças na legislação, endurecendo as regras contra práticas que deixam bairros inteiros incompletos e a cidade fragmentada. O combate à especulação imobiliária não é apenas uma medida de justiça social e urbanística, mas uma questão de sustentabilidade financeira e estrutural para o Município. Quem mantém grandes terrenos ociosos não apenas dribla o Fisco, mas impede que o tecido urbano seja mais denso, compacto e eficiente.
E esse adensamento não é detalhe. Uma cidade mais concentrada reduz custos de energia elétrica, saneamento e transporte público. As distâncias diminuem, a mobilidade se torna mais racional e os serviços públicos, mais eficientes e baratos. Uma cidade que se espalha descontroladamente encarece a própria máquina pública e sobrecarrega o bolso dos cidadãos. Nesse aspecto, é louvável que o Município assuma uma postura firme, mesmo que essa decisão possa desagradar a interesses poderosos do mercado imobiliário.
Na outra ponta, porém, a administração municipal ainda demonstra dificuldades na condução do transporte coletivo. A Justiça, em decisão recente, determinou a correção da chamada tarifa técnica dos ônibus e obrigou o Município a quitar os repasses de subsídio ao sistema, com os quais estava inadimplente. A medida judicial revela que não é mais possível conviver com improvisos ou com a tentação de usar o preço da tarifa como instrumento de populismo político.
É compreensível que nenhum governante queira carregar o ônus de uma tarifa elevada, que pesa diretamente no bolso do cidadão e pode custar votos. Mas também é ilusório acreditar que um serviço público de qualidade possa ser mantido sem recursos suficientes. O transporte coletivo de Campo Grande já padece de desconfiança, com críticas recorrentes à sua qualidade. A solução, portanto, passa por transparência e equilíbrio: subsídio público existe e deve continuar, mas a tarifa não pode ser artificialmente achatada, a ponto de comprometer a viabilidade do sistema.
Estamos diante de uma correção de rota. Reconhecer que não há espaço para tarifas irreais é um passo necessário, ainda que impopular. O debate honesto deve incluir não apenas o custo direto do transporte, mas a qualidade do serviço prestado e a responsabilidade compartilhada entre poder público, concessionárias e usuários. Afinal, quem paga a conta pelo transporte coletivo? A resposta não é simples, mas a omissão, certamente, não é solução.
Ocupar o espaço urbano, em última instância, é isso: resolver problemas antigos e permanentes com escolhas que nem sempre agradam a todos, mas que devem priorizar o interesse coletivo. Entre combater vazios urbanos e equilibrar o sistema de transporte, Campo Grande vive dilemas típicos de cidades em crescimento. Superá-los exige coragem política, compromisso com a coletividade e capacidade de enfrentar interesses particulares que, muitas vezes, colocam-se acima do bem comum.