Mato Grosso do Sul consolidou ao longo dos anos uma fama peculiar, que circula entre criminosos e forças de segurança em todo o País: a de ter uma Polícia Militar (PM) implacável com os traficantes.
Essa imagem não é gratuita. Casos de apreensões recordes, perseguições a traficantes armados e enfrentamentos que terminam com a neutralização de criminosos reforçam a percepção de que a ação ostensiva da PM é dura e sem espaço para tolerância.
Para o cidadão comum, trata-se de um fator positivo, pois funciona como elemento de dissuasão. Muitos dos que cogitam atuar no crime sabem que a reação policial em território sul-mato-grossense não será branda.
Esse aspecto, contudo, é apenas uma face de um problema muito maior. O Estado não pode se contentar apenas com a boa reputação de ter uma polícia ostensiva eficiente.
Afinal, Mato Grosso do Sul é, há muito tempo, um dos principais corredores do tráfico de drogas no Brasil. Sua posição geográfica, colada à Bolívia e ao Paraguai, faz de MS uma rota quase inevitável para a entrada de entorpecentes no território nacional.
É aqui que passam carregamentos que abastecem grandes centros urbanos, de São Paulo a Rio de Janeiro, de Brasília a Belo Horizonte.
Não é apenas o tráfico de passagem que preocupa. Também estão enraizados no Estado grupos que nasceram e cresceram explorando a logística da região.
Traficantes locais, com residência fixa em municípios de fronteira e até mesmo em Campo Grande, movimentam recursos, investem em atividades econômicas legais e estabelecem uma presença silenciosa, porém nociva, na economia sul-mato-grossense.
Esse tipo de infiltração é ainda mais perigoso, pois se mescla à vida cotidiana, cria dependência econômica e torna mais difícil para a sociedade enxergar os verdadeiros riscos que corre.
É por isso que o combate não pode se limitar à ponta da linha, aos chamados soldados do tráfico. A repressão ostensiva, por mais dura que seja, tem efeito limitado se não vier acompanhada de investigações consistentes, capazes de identificar, prender e desarticular os chefes que controlam o fluxo de drogas e lavam dinheiro ilícito.
Para tanto, é essencial fortalecer as polícias judiciárias, que têm atribuição legal de investigar e aprofundar casos, ligando os pontos que a polícia ostensiva, por sua natureza, não pode alcançar.
É preciso complementar essa força muito necessária, com inteligência, tecnologia e cooperação institucional. Apenas assim será possível transformar Mato Grosso do Sul de corredor vulnerável em território de resistência efetiva contra o crime organizado.
O que a população deseja e espera é tranquilidade.
E essa tranquilidade só é real quando as quadrilhas, sejam compostas por chefes milionários ou por soldados de baixa hierarquia, não conseguem se criar.
A história mostra que, onde o crime organizado encontra espaço, cedo ou tarde a sociedade paga o preço em insegurança, violência e corrupção. O caminho, portanto, é a intensificação das ações, mirando não apenas os braços executores, mas, principalmente, as cabeças que os comandam.